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Vida longa e próspera

Vida longa e próspera

17/06/2013

Sim, é possível sobreviver por várias gerações num mundo instável e cada vez mais competitivo. Exemplos não faltam de empresas que estão na ativa décadas a fio, inclusive na reposição independente, desmentindo vários mitos empresariais
Texto | Sandra Godoy

O sonho de todo empreendedor é, ao abrir sua empresa, que ela prospere e atravesse gerações. No entanto, a realidade é cruel quando se constata que, de cada 100 empresas em atividade no Brasil, 48 desaparecem do mercado antes de completar três anos. O dado faz parte de um estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com informações de 2010. Segundo a pesquisa, de um total de 464.700 empresas que iniciaram suas atividades em 2007, 76,1% continuavam no mercado em 2008, 61,3% sobreviveram até 2009 e apenas 51,8% ainda estavam abertas em 2010, ou seja, quase a metade (48,2%) fechou as portas.

Quem passa dessa primeira fase ainda pena para prosseguir no mercado. Especialistas garantem que no Brasil apenas 5% das empresas familiares chegam à terceira geração, enquanto no mundo, o percentual chega a 10%, segundo estudo da organização Family Business. Mas, como então existem companhias que resistiram a crises, guerras, globalização, desastres naturais e concorrência e estão aí há décadas –algumas há séculos?


O que é ser longeva

O conceito de longevidade empresarial é relativo. No mercado automotivo é necessário um tempo de maturação do produto –do projeto do veículo até sua produção, daí mais alguns anos para entrar em cena a reposição. Se levarmos em conta que a indústria automobilística mundial tem pouco mais de cem anos –com a chegada ao Brasil em meados do século 20–, quem está há quarenta ou cinquenta no mercado já pode ser considerada longeva. Junte-se à relativamente curta história do automóvel o sem-número de crises pelas quais o país passou, e podemos dar medalhas de ouro aos bravos sobreviventes do mercado. A própria Pellegrino faz parte desde time, já que está no mercado automotivo brasileiro desde 1941.


Tentando decifrar este enigma, os autores Jim Collins e Jerry Porras publicaram, em 1994, o livro “Feitas para durar – Práticas bem-sucedidas de empresas visionárias” (Editora Rocco), resultado de uma pesquisa de seis anos com dezoito companhias norte-americanas líderes em seus segmentos por décadas, e que nem sempre seguiram a cartilha dos especialistas, como ter um líder carismático, uma ideia genial e intuição como fatores de sucesso e longevidade.

Eles se debruçaram sobre mais de cem mil páginas de livros, relatórios, matérias de jornais e revistas para traçar um perfil histórico e filosófico dessas empresas –Ford, Johnson & Johnson, GE, IBM, Sony e Wal-Mart, entre elas–, em comparação com suas concorrentes –grandes organizações como Colgate e Westinghouse, mas que, para eles, não são visionárias.

Embora tenham se passado quase vinte anos desde sua publicação, o livro não perdeu sua atualidade. Num mundo dinâmico, com sucessivas crises e reviravoltas na economia mundial, muitas das empresas citadas no estudo passaram por dificuldades, como a Ford, atingida pela crise norte-americana de 2008 e até hoje tentando se reerguer. No entanto, segundo os autores, o fato de elas serem empresas visionárias não impede que intempéries de todo o tipo as atinjam –o que faz a diferença é a forma como elas as enfrentam.


As mais antigas do setor auto

As montadoras começaram a chegar ao Brasil no início do século XX. A primeira foi a Ford, em 1919, com a instalação da primeira fábrica no centro de São Paulo, 16 anos após sua fundação pelo visionário Henry Ford, em Detroit. Em seguida, veio a General Motors, em 1925 (havia sido fundada em 1908 nos EUA). As alemãs Volkswagen (fundada pelo governo alemão em 1930) e Mercedes-Benz (oficialmente a marca que produziu o primeiro automóvel, em 1886) se instalaram em 1953 e 1956, respectivamente.

Autopeças. Junto com as montadoras vieram as autopeças, muitas até hoje no mercado, como a Bosch (fundada em 1886 na Alemanha e no Brasil desde 1954), Timken  (desde 1899 nos EUA e 1944 no Brasil), ZF (criada na Alemanha em 1915 e em atividade no país desde 1958), e Mahle (Alemanha, 1920, Brasil 1951). Além das estrangeiras, as brasileiras Sabó (1939) e Fras-Le (1954) são algumas das empresas veteranas no mercado automotivo nacional. A própria Pellegrino faz parte desde time, já que está mercado brasileiro desde 1941, atuando na distribuição de autopeças para o mercado de reposição.


Ciclos mais curtos. Para o consultor Luigui Moterani,especialista em gestão, inovação e marketing, as ideias presentes no livro ainda valem nos dias atuais. “O que mudou é que os ciclos empresariais estão cada vez mais curtos –se antes as mudanças aconteciam a cada cinquenta anos, hoje ocorrem a cada dez”, afirma. Para Moterani, o êxito do livro se deve à desmistificação de algumas “verdades” que, se acreditava, fossem o segredo da longevidade empresarial.

Resumimos, a seguir, alguns dos pontos-chave do livro, que ainda valem uma reflexão:

O mito do líder carismático. Um dos pontos principais do livro aponta o fim de um mito: o do líder carismático, que conduz seus empregados para o sucesso da empresa, criada a partir de uma ideia genial, fruto da intuição de seu fundador. Claro que sempre há um Steve Jobs (fundador da Apple) para contrariar, mas, na maioria das vezes, os líderes das grandes companhias são pessoas normais, que podem ter tido uma ideia genial em algum momento, mas que tiveram êxito por outras qualidades. Uma delas é “dar ferramentas, não impor soluções”. Para os autores, essa atitude é a principal característica dessas empresas. Seus criadores, em vez de conduzir multidões, geraram mecanismos que possibilitassem às companhias prosperar, independentemente de sua presença.


Meio século de credibilidade

Francisco Assis de Lima era um jovem empreendedor quando fundou a Assis Autopeças, em Sobral (CE) em agosto de 1965. Hoje, 48 anos depois, é ele quem ainda comanda a empresa, do alto de seus 73 anos e com muita disposição. Francisco conta que começou no mesmo prédio onde está até hoje –primeiro alugado, depois próprio, assim como o imóvel vizinho, anexado tempos depois.

Ele diz que o segredo de se manter com sucesso no mercado mesmo depois de quase meio século, é a credibilidade conquistada junto aos clientes, fornecedores e parceiros do negócio. “Também tenho por princípio não pagar aluguel nem juros a bancos”, explica. Assim, com imóvel e recursos próprios, ele prosperou e optou por não criar filiais, mas empresas independentes para cada filho. Paulo Sérgio e Álvaro César são proprietários de autocenters, Alvênia tem uma retífica de motores diesel e o neto Marcel também já tem sua empresa, uma locadora de tratores e máquinas. “Mesmo sendo independentes, não deixo de dar uma orientação, um empurrãozinho de vez em quando”, diz.

Outro fator para a longevidade de sua empresa, conta Francisco, é o bom relacionamento com os clientes, graças ao time de vendedores experientes –o mais veterano está há 35 anos na casa, e o mais novo, há cinco anos. Longo também é o relacionamento com a Pellegrino: “Somos fregueses há mais de trinta anos”, afirma, com orgulho.


Tradição e adaptação. Empresas visionárias são aquelas que venceram uma aparente contradição entre preservar seus propósitos e conseguir se adaptar ao mercado para vencer. O importante é não ser excludente, ou seja, uma empresa pode ter valores tradicionais e também olhar para o futuro. Veja no box 'Abaixo o OU, viva o E' algumas dualidades que as empresas visionárias conseguem conciliar.

Metas audaciosas. Quando, no início do século passado, Henry Ford disse que o automóvel seria tão popular que os cavalos desapareceriam das ruas e “toda pessoa com salário razoável poderia comprá-lo”, muita gente deve ter pensado que ele estava louco. Não só não estava como desenvolveu um sistema de produção que barateou enormemente os custos, colocou nas ruas milhares de modelos Ford e revolucionou a economia mundial. Este é um exemplo de Metas Audaciosas, mais um ponto em comum com as empresas visionárias. Elas estão sempre saindo de sua zona de conforto para ir além, desde que esteja em harmonia com a ideologia e os valores da empresa, outro ponto fundamental para a longevidade. E, por ideologia e valores, entende-se mais do que um bonito quadro na recepção da empresa –ou na abertura do site–, que ninguém mais lê ou acredita.


Abaixo o OU, viva o E!

Empresas que prosperaram e conseguiram influenciar a sociedade resolveram questões aparentemente contraditórias como:


Fonte: livro “Feitas para durar”, Jim Collins e Jerry Porras, Ed. Rocco


Cultura de devoção. Isto leva ao ponto mais controverso do estudo, a chamada Cultura de devoção dessas empresas. Jim Collins e Jerry Porras chegaram à conclusão de que a cultura interna nessas organizações é tão forte que quem não comunga os mesmos credos inevitavelmente é expelido. Não precisamos chegar a tanto, eles aconselham. Mas não é o sonho de todo empresário que seus colaboradores, para usar uma expressão que já foi moda, “vistam a camisa” da empresa, e trabalhem como se fossem acionistas? Para chegar a isso, eles recomendam algumas ações para que se crie esse culto à ideologia dentro da organização, como treinamentos e avaliações que mostrem o quanto os funcionários conhecem os valores centrais.

Líderes formados internamente. Todo o mundo reconhece Jack Welch como o executivo que revolucionou a GE. Mas nem todos sabem que Jack é funcionário de carreira da GE, ou seja, já estava lá havia mais de 20 anos, quando começou a ficar famoso. Este é outro ponto em comum das empresas visionárias: a formação de líderes internos, que se consegue a partir de treinamento e a criação de comprometimento com a ideologia e as metas da empresa. O que signfica que santo de casa faz milagres, sim.


Para ganhar força e longevidade

O consultor Ruy Barros, do Sebrae São Paulo, afirma que para que a empresa se perpetue, é necessário estabelecer metas através de um planejamento e monitorar essas metas constantemente. “Deve-se fazer as correções para atingir o objetivo pretendido”, explica. Ele acredita também que, além dos controles financeiros e organizacionais, trabalhar bem o marketing, divulgando o negócio, é uma das fórmulas da longevidade. Ele dá ainda algumas dicas que complementam os ensinamentos do livro “Feitas para durar”, adaptados à realidade brasileira:

Buscar oportunidades e ter iniciativa –praticar a visão de futuro, agindo para expandir o negócio;

Saber correr riscos calculados, avaliar as alternativas, reduzindo riscos e controlar os resultados;

Ser persistente, saber mudar de estratégia, assumindo muitas vezes a responsabilidade pessoal pelo desempenho para atingir as metas;

Ser comprometido com o negócio, muitas vezes até com sacrifícios pessoais;

Ser justo e sempre colaborar com a equipe;

Sempre buscar informações – com clientes, fornecedores e concorrentes, fazendo assim uma análise real do seu mercado;

Ser independente e autoconfiante, mantendo seu ponto de vista e expressando segurança na própria capacidade ao enfrentar desafios.


Nunca é suficiente. Uma das características das empresas pesquisadas no livro é que elas nunca descansam. Mesmo atingindo suas metas e objetivos, elas estão sempre em busca de mais. Elas se perguntam, “como poderemos nos sair melhor amanhã do que nos saímos hoje?”. Por isso, é preciso trabalhar duro, ter muita disciplina, estimular o desconforto e acabar com a acomodação, por melhores que sejam os resultados.

Aplicar o que der certo. Para o consultor Luigui Moterani, este é o grande ensinamento das empresas visionárias. “Este é o ponto principal da sobrevivência. A empresa precisa ter coragem para romper paradigmas e mudar o que for preciso”, afirma. Ele concorda com os autores de que adaptar-se às mudanças sem perder o núcleo central é um dos segredos da longevidade. Para ser uma empresa visionária é preciso haver continuidade, através de um compromisso de longo prazo. “No Brasil, por conta de nossa história de crises e inflação, sempre pensamos no curto prazo. Agora que temos relativa estabilidade, é hora de as empresas passarem a se preocupar com as próximas décadas”.


“Adaptar-se ao mercado”

A Comercial Tucano tem uma história que já dura mais de quatro décadas, desde que o fundador Genésio Foizer montou a empresa na cidade de Campo Grande-MS, em 1969, como revendedor de baterias automotivas. Hoje a Comercial Tucano atua em várias frentes, como revenda de tratores e implementos agrícolas, atacado e varejo de autopeças, centro automotivo e car service Bosch. Genésio ainda comanda a empresa como diretor geral, mas divide as responsabilidades do negócio com os filhos Adilson (administração financeira e marketing), Amilton (comercial) e Adriana (que dirige o atacado em Três Lagoas). Segundo Adilson, o segredo da longevidade da empresa está sustentado em três pilares: “Em primeiro lugar, a equipe experiente e bem preparada formada no início da empresa, que hoje conta com funcionários com média de vinte anos de casa (o que é muito importante em nosso mercado); em segundo, o nosso compromisso em agradar o cliente, sem medir esforços e, em terceiro, a dedicação do fundador e agora da segunda geração ao negócio”, explica. Para ele, a empresa que quer se perpetuar deve observar e se adaptar às mudanças do mercado, em tempos de prosperidade ou de crise.


O desafio da longevidade no varejo de autopeças

Sobreviver, prosperar e se tornar uma empresa longeva é difícil em qualquer ramo de atividade. No mercado de reposição de autopeças, então, é um desafio diário, já que o setor está ligado ao desempenho da indústria automotiva e da economia do país, que, como sabemos, nem sempre navega em águas calmas.

Para Genésio Francisco Guariente, gerente executivo do Sincopeças do Paraná, o mercado de varejo de autopeças está passando por uma metamorfose, e sobreviverão aqueles que melhor se adaptarem às mudanças. “Os impactos causados pelas novas exigências fiscais e tributárias vão além da capacidade de assimilação do pequeno e médio empresário. Este é um fator determinante para saber quem terá fôlego para atravessar esses obstáculos, num mercado cuja cultura empresarial era outra até pouco tempo atrás”, analisa. Ele diz que o feeling comercial ainda é indispensável, mas o domínio técnico da gestão administrativa e financeira será o grande desafio. “Viver dos lampejos da imaginação como era até pouco tempo atrás, já passou”, sentencia Guariente.

Respeito e honestidade. O presidente do Sincopeças de Belo Horizonte (MG), Helton Andrade, tem uma visão um pouco diferente, mas complementar, dos fatores que levam uma empresa a sobreviver por décadas. “O segredo para uma empresa durar pode ser resumido em três palavras: respeito, educação e honestidade, seja na relação com os clientes, funcionários, fornecedores e até com o pessoal da padaria e do açougue da vizinhança”, teoriza. Ele sabe do que está falando, já que sua empresa, a Internacional Peças, está no mercado desde 1969, fundada pelo pai, Hugo Andrade. Sempre com esta filosofia, hoje é administrada com sucesso por Helton e seus irmãos Heliana, Hélcio, Helbert, Helder e Hugo Jr., nas três unidades (BH, Ipatinga e Sete Lagoas).

Ele ressalva, porém, que além dessas qualidades, é preciso ter competência, gostar de trabalhar no ramo e seguir a cartilha do bom empresário –prestar atenção nos custos, atender bem o cliente, ter bom preço, administrar o estoque– para sobreviver no mercado. “Outra coisa que não funciona é ficar focado apenas no lucro. Quando o empresário só pensa em lucrar, nunca termina bem”, adverte.


SAIBA MAIS

LUIGUI MOTERANI (CONSULTOR)
(18) 9703-0385
luiguimoterani@gmail.com
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RUY BARROS (SEBRAE)
SEBRAE-SP
0800 570 0800
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GENÉSIO FRANCISCO GUARIENTE (SINCOPEÇAS-PR)
(41) 3213-3550
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HELTON ANDRADE (SINCOPEÇAS-MG)
(31) 3201-0904
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