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BARATO QUE SAI CARO

BARATO QUE SAI CARO

26/04/2016

Em 2016, o Inmetro irá intensificar a fiscalização de peças sem selo de certificação. É importante os lojistas manterem os estoques em dia e alertarem o consumidor sobre os perigos de usar uma peça falsificada

 

Por Rosiane Moro

A cena é bem corriqueira: o balconista passa o preço da peça e o cliente diz que encontrou o mesmo item, da mesma marca, pela metade do preço em um outro estabelecimento. Apesar dos preços serem livres, uma diferença de valores tão gritante só pode indicar que a peça provavelmente é falsificada ou roubada. Nesse caso, vale alertar o consumidor para o fato de que a economia na hora da compra pode trazer sérios prejuízos lá na frente e ainda afetar não só desempenho do carro como também a segurança dos usuários.

A venda de produtos ilegais é uma prática bem frequente no Brasil, e o número de infrações continua crescendo, apesar de a conduta estar sendo arduamente coibida pela Polícia Federal com o aumento da fiscalização e também por medidas regulatórias para dificultar as fraudes, como a certificação do Inmetro no caso das autopeças. Segundo dados da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), o Brasil deixa de arrecadar anualmente mais de R$ 100 bilhões por conta dos produtos falsificados. As autopeças ocupam o segundo lugar no ranking dos itens mais falsificados do mercado, perdendo apenas para os cigarros.

A maioria dos produtos piratas é proveniente da China, e São Paulo é o destino preferido dos bandidos, seguido por Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Goiás, Pará e Rio de Janeiro. Para o diretor da ABCF, Rodolpho Ramazzini, o varejo pode ser um grande aliado no combate à falsificação. “É importante só comprar produtos de marcas reconhecidas, desconfiar da procedência se o preço estiver muito baixo e adquirir peças somente de empresas idôneas. E sempre que desconfiar de algo faça uma denúncia pelo site da ABCF”, ressalta. Também é importante checar as embalagens. Por mais que tentem fazer uma imitação perfeita, alguma coisa sempre sai errado, como a cor, a grafia, o logo ou até a gravação na própria peça. E o alerta vai até para a certificação. “O nível de sofisticação das falsificações é tão alto, que em uma das últimas apreensões da Polícia Federal as peças eram certificadas. A esposa do chefe da quadrilha era a dona de uma certificadora”, reforça Ramazzini.

 

O argumento da qualidade

O aumento na quantidade de produtos fraudados não significa necessariamente que as ações não estão sendo efetivas. O coordenador do Grupo de Manutenção Automotiva e conselheiro do Sindipeças para o mercado de reposição, Elias Mufarej, acredita que as medidas estão trazendo avanços. “O trabalho é bastante complexo, demanda tempo e investimento por parte dos fabricantes, mas tem evoluído. A certificação é uma maneira eficaz de coibir a entrada de peças sem procedência e origem duvidosa, pois criam-se padrões de qualidade que devem ser atendidos. É saudável para o mercado e seguro para o consumidor.”

Em tempos de crise, quando as pessoas buscam economizar o máximo possível, é complexo explicar para o consumidor por que deve levar um produto mais caro em detrimento de outro. No caso das autopeças, a tarefa é até mais fácil, uma vez que as vantagens dos produtos genuínos são bem claras. “É importante destacar que as peças de marcas reconhecidas e tradicionais são desenvolvidas após passarem por uma série de testes e análises. Portanto, o balconista venderá produtos de qualidade que não causarão problemas na aplicação”, explica Mufarej. O coordenador também destaca o fato de essas peças contarem com o suporte dos fabricantes para casos de troca, informações técnicas e catálogo que ajuda a identificar o produto correto para a aplicação desejada.

 

De olho no mercado

Até o momento, mais de 15 itens já possuem certificação do Inmetro, segundo o Sindipeças. Os itens não são escolhidos aleatoriamente: “Só serão objeto de regulamentação e certificação as autopeças que afetam a segurança do veículo e para as quais existem normas”, confirma o diretor de avaliação da conformidade do Inmetro, Alfredo Lobo.

Além de certificar, o Inmetro também inspeciona os itens vendidos nos estabelecimentos comerciais. Em 2015, por exemplo, foram realizadas 1.038 ações de fiscalização de produtos como amortecedores, anéis de pistão, bombas elétricas de combustível, bronzinas, buzinas, lâmpadas, pinos e anéis de trava e pistões de liga leve. O item que apresentou o maior percentual de irregularidade foi o amortecedor, seguido pelas lâmpadas e buzinas. No restante das peças analisadas, não foram encontradas irregularidades. “De um modo geral, pode-se dizer que poucos estabelecimentos comerciais (cerca de dez) foram autuados em 2015, e o mercado desses itens vem apresentando baixos índices de irregularidade”, assegura Lobo. A multa por irregularidade varia de R$ 100 a R$ 1,5 milhão, dependendo da quantidade de itens, além da apreensão da mercadoria. Para 2016, estão agendadas cerca de 8 mil ações de fiscalização pelo Inmetro em todo o Brasil.
 


Marcio, da Radiauto Auto Peças

Não existe milagre

A Radiauto Auto Peças, de Ananindeua (PA), está localizada em um dos Estados com maior índice de peças falsificadas do país. O proprietário, Marcio William de Sena França, confirma que antigamente a região tinha muitos casos de mercadoria de origem duvidosa, mas de uns anos pra cá o problema caiu bastante. “O cliente não pergunta a procedência da peça, então a responsabilidade de adquirir itens somente de bons distribuidores é do lojista. Se está barato, é porque tem algo errado”, assegura. Para ele, produtos de má qualidade só trazem transtornos para a empresa. “Vai dar defeito e não tem garantia. É prejuízo na certa, além de perder um cliente”, comenta. Por isso, a equipe de vendas da Radiauto é constantemente treinada para explicar a diferença entre uma peça de qualidade e outra de origem duvidosa. “Às vezes, o cliente só quer um desconto, mas pode ser que esteja mesmo comprando gato por lebre em outro lugar”, observa França.
 


Denys, da Nova Lik Auto Peças

Procedência garantida

O empresário Denys Fernandes da Costa, da Nova Lik Auto Peças, no Rio de Janeiro (RJ), diz que o problema de venda de peças falsificadas na cidade continua alto e não percebeu mudança no mercado depois da certificação do Inmetro. “Por aqui as fraudes não caíram. Só não entendo como uma empresa compra um produto bem mais barato e depois diz que não sabia que era falsificado. Só de ver o preço já dá pra saber que não é coisa honesta”, confirma. O lado bom é que os mecânicos, grande parte dos clientes da Nova Lik, só compram peças de marca e de procedência garantida. Costa reforça, porém, que poderia existir uma maior divulgação para informar o consumidor sobre o problema e também sobre o calendário de certificação do Inmetro para os lojistas. “Nunca sei se estou dentro do prazo. Essa informação deveria ser melhor propagada pra gente não correr o risco de ter perdas com essa transição.”

 

SAIBA MAIS

RODOLPHO RAMAZZINI (ABCF)

(11) 3115-4082

abcf@abcf.org.br

www.abcf.org.br

 

ELIAS MUFAREJ (SINDIPEÇAS)

(11) 3848-4848

sindipecas@sindipecas.org.br

www.sindipecas.org.br

 

ALFREDO LOBO (INMETRO)

(61) 3348-6300

www.inmetro.gov.br