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UMA VIDA SOBRE RODAS

UMA VIDA SOBRE RODAS

25/11/2016

Por Rosiane Moro

Era uma vez um jovem viajante comercial chamado Dante Pellegrino que decide fazer jus a seu sobrenome e se lançar em uma longa jornada. Tudo começa em plena Segunda Guerra Mundial, mais precisamente em 1941, quando Dante decide dar asas ao antigo sonho de abrir uma importadora de autopeças em São Paulo. Nem é preciso dizer que a época é pra lá de conturbada. O Brasil vive um cenário de escassez: falta trigo, gasolina, diesel, açúcar, energia, carne. A crise de abastecimento mina as esperanças dos brasileiros obrigados a passar horas e horas em filas para comprar alimentos. Mas nada nem ninguém consegue tirar o ímpeto empreendedor de Dante.

A missão ganha ares de excentricidade quando se nota que carros circulando pelas ruas eram raridades e apenas duas fábricas produziam automóveis no país, a Ford e a GM. Alguns historiadores afirmam que durante a guerra era possível até atravessar as ruas sem olhar para os lados. Cena difícil de se imaginar, principalmente nos dias de hoje, quando a maioria das cidades mal se movimenta por excesso de veículos. Aí vem a pergunta que não quer calar: o que passa pela cabeça de Dante ao abrir uma empresa para um mercado quase inexistente? Espírito visionário é a resposta mais plausível. Onde todos veem colapso, Dante Pellegrino avista oportunidades. Onde todos veem ruas vazias, Dante enxerga carros e mais carros. E junto com eles peças e mais peças, lojas e oficinas mecânicas para serem abastecidas e muito progresso pelo caminho.

A certeza da trajetória ser um sucesso é tanta, que Dante batiza o negócio com o próprio sobrenome: Pellegrino. Em tempo: o termo italiano “pellegrino” significa “peregrino”, aquele que sai em viagem por terras longínquas. Mal sabia ele que acabara de plantar a raiz de uma empresa tão forte quanto os seus sonhos. E que, assim como ele, está pronta para desbravar um Brasil desconhecido, vivenciar os primeiros avanços tecnológicos, inovar na relação empresa-cliente, e ser capaz de crescer, se transformar e se multiplicar quantas vezes for preciso.

O passo seguinte para a consolidação do negócio era encontrar um lugar adequado para acomodar tantos anseios. E o nosso Dante decide que o marco inicial da sua caminhada será uma pequena garagem, na avenida Rebouças, no bairro Cerqueira César, em São Paulo. O espaço diminuto é proporcionalmente inverso ao tamanho do entusiasmo do empresário, que não desanima nem mesmo diante de inúmeras dificuldades. A primeira delas foi se conectar com os clientes, principalmente as empresas fora de São Paulo. Para falar com o Rio de Janeiro, por exemplo, Dante precisa aguardar pacientemente cerca de cinco horas até a telefonista completar a ligação. Ganhar a estrada também não é tarefa fácil: a viagem entre São Paulo e Rio de Janeiro consome nada menos do que 12 horas do dia do empresário. Outro problema é reduzir o prazo de recebimento dos produtos, uma vez que a maioria dos itens é proveniente do exterior. Cada obstáculo é visto como uma grande oportunidade e serve para fortalecer os alicerces da Pellegrino criados na sua fundação: bom relacionamento com os fornecedores, qualidade na prestação dos serviços e excelência no atendimento aos clientes. Atributos capazes de vencer até mesmo a ação do tempo.

Os anos passam, estradas são construídas, novas fábricas de automóveis chegam ao país, surge a indústria de autopeças. E o que antes era apenas uma aposta de um jovem visionário agora torna-se realidade. Mesmo diante do cenário ideal, o olhar de Dante nunca estaciona na estrada. Quando um objetivo se concretiza, lá vai ele em busca de outro e mais outro desafio. A inquietação de Dante o leva a criar, em 1956, o primeiro catálogo de peças do país. Uma verdadeira revolução para o mercado. A inovação agrada a gregos e troianos. De um lado, comemoram os lojistas pela facilidade de encontrar tudo o que precisam em um único lugar. Do outro, os próprios funcionários, que passam a receber os pedidos de peças por telefone.

Com os negócios caminhando a pleno vapor, a pequena garagem já não consegue acomodar a velocidade das largas passadas de Dante. É preciso acompanhar na mesma velocidade a fervilhante fase de crescimento do país. Em 1963 (depois de um período na Rua dos Gusmões), a empresa muda-se para a Alameda Barão de Limeira, em pleno burburinho do centro de São Paulo. Cenário marcado pelo andar ligeiro de homens elegantemente vestidos de terno e gravata e mulheres perfeitamente alinhadas em seus vestidos tubinhos.

De casa nova, a missão agora é transformar a Pellegrino em uma das maiores distribuidoras de autopeças do Brasil. Para conquistar o título, o empresário sabe que é preciso trafegar à frente da concorrência, mas, ao mesmo tempo, andar ao lado dos clientes. Aponta, então, sua bússola para a própria equipe e, em uma época em que o treinamento de funcionários praticamente não existia, coloca todos em uma sala de aula para aprender técnicas de atendimento e satisfação do cliente.

O breve período de estudos o fez perceber que, além da boa receptividade e qualidade dos produtos, era necessário estar mais perto dos clientes, e a única maneira de vencer a barreira da distância era abrir uma bifurcação pelo caminho. Assim surge, em 1965, a primeira unidade de negócios da Pellegrino fora de São Paulo. A cidade escolhida é Goiânia (GO), justamente por sua localização estratégica, bem no centro do país. A empreitada surte efeitos rapidamente e as peças passam a ter melhor escoamento e rapidez na entrega.

Durante a caminhada, Dante sempre mantém as inovações tecnológicas em seu radar. Percebe, então, que para ganhar mais velocidade é preciso ter o impulso de um computador, uma máquina gigante que ocupa praticamente sozinha uma sala da empresa. Apesar do tamanho, o equipamento consegue a proeza de reduzir o tempo de faturamento das peças, de seis meses para alguns dias. Muitos funcionários ainda lembram com orgulho do pioneirismo do empresário ao detectar novas necessidades de mercado e implantar novos métodos administrativos. Como diria o gênio e físico teórico alemão Albert Einstein, a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.

Bastam alguns anos para as instalações da Pellegrino ficarem pequenas novamente. Prova viva de que o plano de expansão está no caminho certo. O empresário nem precisa ir muito longe para achar o local perfeito. A apenas cinco quilômetros dali, na esquina da rua Padre Chico, no bairro da Pompéia, um vistoso prédio de três andares tem a honra de sediar a nova Pellegrino. Estamos agora em 1967 e o Brasil caminha a passos largos. As ruas exibem maior variedade de automóveis, o transporte público de passageiros se consolida e os caminhões ganham as estradas ávidos por abastecer mercados mais distantes. Momento ideal para as empresas de autopeças se instalarem no país de olho no gigantesco potencial do mercado automobilístico. Provavelmente nem Santos Dumont, que circulava sozinho a bordo do único automóvel existente no Brasil em 1891, poderia imaginar o intenso vaivém de veículos da década de 1970. São Brasília, Kombi, Fusca, Passat, Fiat 147, Corcel e o luxuoso Chevette por todos os lados.

Mas não é apenas a Pellegrino que enxerga o boom dos negócios sobre rodas. Várias lojas e oficinas mecânicas especializadas em veículos leves e pesados brotam no mercado. Muitos deles ativos na Pellegrino até os dias de hoje, uma boa demonstração de que o atendimento primoroso, o treinamento dos funcionários e o olhar visionário de Dante ainda rendem ótimos resultados.

Apesar de o mundo estar sofrendo com a crise do petróleo, o Brasil ainda respira os louros do chamado milagre econômico iniciado nos anos 1960. É o momento em que as multinacionais começam sua expansão pelo país. Não adianta mais produzir mais do mesmo, é preciso aumentar o portfólio para ganhar novos mercados. É com esse objetivo em mente que, em 1972, os executivos da Dana Corporation, fabricante americana de juntas, eixos diferenciais, eixos cardans e transmissões, decidem dominar também o mercado de distribuição e unem forças à Pellegrino ao adquirir 40% da empresa.

A união traz maior poder de atuação e vigor para a Pellegrino continuar seu processo de expansão, com a abertura de filiais em Recife (PE) e Campo Grande (MS). O negócio fica tão atrativo que a Dana decide, em 1977, ficar com 100% da capital da empresa. Dante Pellegrino vê ali que chegou ao ponto final da sua jornada. É hora de estacionar, curtir a merecida aposentadoria e admirar à distância o sucesso da sua marca.

Gestão por competência

Quem assume o posto de novo condutor da Pellegrino é Ennio Moura do Valle, diretor financeiro da Dana, que chega com a incumbência de profissionalizar os processos administrativos em um ambiente cunhado pelo viés familiar da antiga gestão. O desafio é tirar todo o proveito da talentosa equipe e fazê-la compreender a nova sistemática, que deixa de prestar conta para o dono e passa a mostrar resultados para os acionistas. Na bagagem, Moura do Valle, um ex-professor carioca, traz sua excepcional visão humanista sobre o mundo dos negócios. Gênio matemático, extremamente organizado e exigente, o novo presidente, sempre cativante e gentil no trato com os colegas, faz com que as mudanças aconteçam de forma tranquila e extremamente profissional. Pode-se dizer que seu grande trunfo foi saber colocar as pessoas certas no lugar certo. Ao aproveitar o capital intelectual dentro da empresa, Ennio consegue seu feito mais importante: fazer com que a equipe compartilhe os mesmos propósitos e objetivos e cada departamento passe a caminhar sozinho sob a orientação de seus diretores.

O novo modelo de gestão faz a Pellegrino conquistar feitos expressivos ao conseguir transitar incólume pela crise do petróleo que finalmente respinga no Brasil no final dos anos 1970. Provavelmente inspirado pelo estilo pioneiro de seu antecessor, Ennio, em vez de preservar forças, parte em busca de novos caminhos. Aproveita a criação do Proálcool e o surgimento dos primeiros veículos movidos a etanol, para abastecer a empresa com itens para suprir a nova demanda. Também conduz a compra da Souza Duarte Distribuidora, no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, para ampliar a ocupação territorial da empresa e facilitar o abastecimento do varejo dessas regiões. Dali, a empresa toma o rumo do centro-oeste e instala mais uma filial, em Cuiabá (MT).

Após sete anos na direção da Pellegrino, Ennio é convidado a galgar voos mais altos dentro da própria Dana. Para seu lugar é promovido o co-piloto Moacyr Negro Puerta, até então vice-presidente de operações da empresa. A escolha não é ao acaso. Negro Puerta tem a mesma energia, o mesmo entusiasmo, o mesmo senso de oportunidade que os dois antigos presidentes. Atributos ideais para dar andamento à trajetória de sucesso da empresa. No mesmo ano em que assume a presidência, em 1984, Negro Puerta fortalece os negócios da marca no Paraná e Santa Catarina ao adquirir a WIB Distribuidora e instalar filiais também em Lages (SC), Curitiba e Londrina (PR). Movimentação bem propícia para fazer jus ao lançamento do primeiro slogan da marca: “Sempre mais perto de você”.

O ritmo aquecido e acelerado dos negócios de autopeças dá muita experiência, flexibilidade e visão aos seus executivos, o que faz com que sejam profissionais extremamente desejados pelo mercado de trabalho. É o que acontece com Negro Puerta, também convidado a ocupar um importante cargo na Dana. Nesse momento, entra em cena um novo diretor, Fabio Dabbur, funcionário da Pellegrino há 11 anos, que vai conduzir a Pellegrino por 17 anos. Com um olho dentro da empresa e o outro fora, Fabio comanda mudanças importantes no ritmo de trabalho, com a adoção do planejamento estratégico como embasamento para as novas investidas da empresa. Também incorpora a gestão pela excelência, fortalecendo ainda mais as relações com os mais diversos públicos: clientes, fornecedores, funcionários, acionistas e comunidade.

Da mesma forma, inicia uma nova sistemática de trabalho ao dividir os produtos por categorias, como motor, freio, elétrico, suspensão, transmissão, entre outros. Denominação utilizada até os dias de hoje por todas as empresas do segmento. A nova estruturação chega na hora certa e faz com que a Pellegrino passe pelos turbulentos anos 1990, com suas inúmeras mudanças políticas e econômicas, de forma tranquila. Mercado novo, clientes novos, novo slogan: “Gente encontrando a melhor solução”, que posteriormente evolui para “Conte com nossa gente”, que até hoje acompanha a empresa.

Enquanto o país se recolhe para se ajustar aos novos rumos políticos e contabilizar os números depois de vários planos econômicos, a Pellegrino segue adiante sem descanso. Com o binóculo em punho, avista novos mercados. A filial de Salvador (BA), inaugurada em 1992, por exemplo, é fruto desse período de prosperidade. No mesmo embalo vêm as unidades de Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE), Campinas (SP), Araguaína (TO) e Belém (PA).

Com funcionamento interno sincronizado como reloginho, a Pellegrino detecta a necessidade de profissionalização do mercado e cria, em 1997, o Programa Pellegrino de Tecnologia Automotiva (PPTA), com treinamentos para varejistas e aplicadores de todo o Brasil. Com a entrada de novas marcas e modelos de automóveis no mercado, o segmento está ávido por cursos de atualização para adquirir conhecimentos técnicos e novas ideias de modelos de gestão.

Tanto investimento e tanto trabalho dedicados à marca só podem acabar em prêmios e, mais uma vez, em uma conquista inovadora: a Pellegrino é a primeira empresa do segmento de reposição a receber a Medalha de Ouro do Prêmio Paulista de Qualidade de Gestão (PPQG), entregue pelo Instituto Paulista de Excelência de Gestão (IPEG) por dois anos consecutivos, em 2001 e 2002. Em 2002, ela ainda é Finalista do Prêmio Nacional da Qualidade (FNPQ). Para completar, a Pellegrino é reconhecida vários anos seguidos pelo Guia Você SA/Exame “As 150 melhores empresas para você trabalhar”.

Em 2004, mais um acontecimento especial faz a jornada da Pellegrino mudar de rumo ao ser incorporada pela Affinia, um grupo americano líder mundial na fabricação de componentes automotivos para o mercado de reposição e detentor de marcas consagradas, como Nakata, Spicer e Wix. A gestão da empresa fica ainda mais qualificada, já que todos os negócios do grupo passam a estar concentrados no mercado de reposição. O que pode ser traduzido em mais experiência, mais foco e mais possibilidades de crescimento, como a chegada da marca a regiões de grande prosperidade, como as cidades de Belém (PA), Uberlândia (MG), São José do Rio Preto (SP) e Blumenau (SC). Um ano depois, a Pellegrino vai em busca de mais espaço e de melhor localização, transferindo-se para a Avenida Imperatriz Leopoldina, na zona oeste de São Paulo.

Em 2006, Fabio Dabbur decide seguir por outro caminho e passa a se dedicar a seu próprio negócio. Quem assume o volante é Antonio Carlos de Paula, oriundo da Dana e da Affinia. O foco agora é expandir o portfólio da Pellegrino para novos negócios. Assim, a empresa passa a oferecer peças de reposição para motos e também acessórios, ampliando o portfólio de produtos, envolvendo cerca de 60 fornecedores. Com o aporte dos novos negócios, a empresa ganha quilometragem para abrir mais duas unidades. Uma em Marília (SP), em 2009, e outra em Natal (RN), em 2011. No início de 2014, é inaugurada a filial de Santo André (SP) e no final do mesmo ano a de Porto Velho (RO), totalizando na atualidade 22 filiais.

A caminhada de sucesso da Pellegrino como uma das maiores distribuidoras de autopeças do país, com uma vasta carteira de clientes, faz a empresa ser altamente cobiçada pelo mercado e atrai o olhar de um importante conglomerado empresarial do país, o Grupo Comolatti. Com o negócio concretizado, a Pellegrino junta ao seu sobrenome mais um nome vitorioso e engrossa o vasto portfólio do grupo, que já conta com as distribuidoras Sama, Laguna e Matrix, a CAR – Central de Autopeças e Rolamentos (grupo administrador das distribuidoras Roles e RPR Motopeças), uma rede de serviços automotivos (PitStop), duas concessionárias (Volkswagen e Iveco), um restaurante (Terraço Itália) e uma imobiliária (Bernina).

Quilômetros e quilômetros após ter iniciado sua jornada, a Pellegrino continua moderna, atuante e com energia de sobra para se reinventar toda vez que o mercado exigir. Com certeza, o caminho percorrido até aqui foi bem mais longo do que aquele imaginado por Dante lá nos anos 1940. Mas não está nem perto de chegar ao fim. Uma nova fase se inicia, com novos desafios, engajamento e empolgação de nosso time revigorados para que a Pellegrino continue a exibir a relevância que demonstrou até agora.