MANIÇOBA

MANIÇOBA

19/07/2017

Francisco (de camisa branca) e esposa com o time da Auto Peças Fé em Deus

A força guerreira de uma família para fazer avançar seu varejo no Pará e preservar tradicional receita que exige fervura por 7 dias

 

 

Por Nei Bomfim

 

Cinco minutos de conversa com Francisco de Assis Chaves de Araújo, dono da Auto Peças Fé em Deus, de Marituba, região metropolitana de Belém (PA), e já se sente que empresa, família e alegria formam o kit de vida deste paraense descendente de cearenses. A empresa nasceu graças à família; só sobreviveu por causa da “força guerreira” da esposa, Iranil de Araújo; e é para a família toda que ele prepara a sua receita, num ritual de fervura no tacho por sete dias –o da maniçoba.

Era 2006. “Eu trabalhava com sucatão, que é como se chama aqui o mercado de peças usadas, quando vi a necessidade de migrar para o de peças novas”, conta Francisco. Sem dinheiro, a solução foi conseguir crédito de fornecedores. E se jogar no negócio com o apoio da esposa.

A Fé em Deus hoje atende a linha leve popular de peças de alimentação, suspensão e escapamento. Abrange Marituba e outras cidades da região. Nelas circula uma frota de carros populares geralmente de cinco a seis anos de uso.

Mas muita água rolou até a empresa chegar aos atuais 330 m2 construídos, 17 funcionários e uma dinâmica de vendas que pode até fraquejar um mês, mas se recupera no seguinte e assim desenha uma curva de crescimento. A loja mal tinha um ano quando Francisco, doente, afastou-se por 40 dias. “Foi aí que a Iranil mostrou como as mulheres são guerreiras: manteve todos os compromissos e, quando voltei, a loja estava melhor do que antes”, conta Francisco com a voz sempre calma, mas emocionada.

O filho mais velho, Júnior, na época criança, hoje auxilia na administração. Com 17 anos, já é sua responsabilidade a área de Compras. A família prossegue na estratégia que vem dando certo. “Diversificamos o estoque com muitos tipos de peças pequenas e de giro rápido. Nada de lataria ou pneus”, afirma o empresário.

Francisco fecha a entrevista com sua receita preferida. Ela exige coragem: pede fervura no tacho durante sete dias, oito horas por dia –para eliminar a toxina das folhas da maniva. Trata-se da maniçoba, tida como de origem indígena, muito requisitada na festa paraense do Círio. Em compensação, dá prazer para 20 pessoas ou mais –ou seja, uma família inteira até o terceiro grau. “É uma das tradições que sigo como paraense.”

 

Ingredientes

» 2 kg de maniva pré-cozida

» 5 l de água

» 200 g de charque

» 500 g de bacon

» 500 g de linguiça calabresa

» 500 g de lombinho salgado

» 300 g de chouriço

» 500 g de toucinho fresco

» 500 g de bucho de boi

» 2 cebolas grandes picadas

» 6 dentes de alho

» Folhas de louro

» Sal

» Pimenta cominho

» Cheiro verde

» Colorau

» 2 kg de arroz

» 2 l de tucupi

» Folhas de jambu

 

Preparo

Num tacho grande, comece fervendo a maniva (folhas de mandioca brava) com louro, sal e charque. Serão sete dias, oito horas por dia, sempre repondo a água. Atenção: a longa fervura é necessária para eliminar a toxina da maniva: não pode ser consumida crua. No sétimo dia, à parte, corte as carnes em cubos. Escalde e lave as peças salgadas. Sempre à parte, refogue tudo. Junte todo esse guisado à maniva. Apure até o caldo ficar grosso, quase pastoso. Paralelamente, faça o arroz escorrido: somente com água e sal. Assim que o grão amolecer, escorra-o. Variação local indica como acompanhamento o tucupi junto com jambu.