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Velocidade de cruzeiro

Velocidade de cruzeiro

27/03/2019

As perspectivas de crescimento indicam que é hora de investir no próprio negócio, apostar na experiência com o consumidor e reunir esforços para ajustar o panorama dos setores da reposição e reparação

 

Por Rosiane Moro

 

Antecipar tendências, pressentir problemas e projetar resultados. Nem sempre é possível prever o que está por vir, mas ter informações de mercado, saber o que pensam as principais lideranças do seu segmento e estar atento às novidades dos mais diversos ramos de atividades contribuem para vislumbrar oportunidades de negócio. Aqui reunimos a opinião de vários especialistas para ajudá-lo a desenhar ou atualizar o planejamento de 2019. Representantes do Sindipeças, Sincopeças, Sindirepa, Anfavea, IBVendas e IBEVAR dão dicas das perspectivas e do que pode acontecer ao longo ano.

O ano começou com previsões otimistas e bons indícios de retomada, porém o momento ainda exige trabalho e cautela, principalmente porque várias mudanças estão a caminho, como a reforma da previdência e esperada reforma fiscal, com impacto direto na gestão das empresas. De acordo com o relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, a previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro é de crescimento em torno de 2,5%, número positivo, mas pequeno comparado aos índices dos países em desenvolvimento. Já a inflação deve ficar no patamar de 3,5%.

Em relação ao mercado automotivo, a Anfavea estima aumento de 11,4% no licenciamento de autoveículos, com a expectativa de comercializar 2,86 milhões de unidades e produzir 3,14 milhões de unidades, o que representa um aumento de 9% comparado ao ano anterior. “Para 2019, nossa expectativa é de mais um ano de crescimento, exceto nas exportações. A conjuntura macroeconômica indica fatos positivos, como aumento do PIB, inflação diminuindo e queda do dólar. A oferta de crédito em 2018 foi a maior desde 2011. A soma desses fatores ao otimismo com as reformas econômicas propostas pelo novo governo, nos faz acreditar em uma reação sequencial, que passa pela retomada da confiança tanto do consumidor quanto do investidor”, apontou Antonio Megale, presidente da entidade em comunicado à imprensa feito em janeiro.

O mercado de autopeças caminha lado a lado com a indústria automobilística e almeja um crescimento em torno de 7%. A estimativa do Sindipeças é um faturamento nominal do setor de R$ 107,1 bilhões, sendo que desse total 65% são destinados às montadoras, 17,1% à reposição, 12,5% à exportação e 5,4% ao mercado intrassetorial. Apesar de os números serem favoráveis, Elias Mufarej, conselheiro do Sindipeças, lembra que é preciso trabalhar muito para acabar com dois entraves do setor. “O primeiro é a atualização tecnológica dos produtos e o segundo é a falta de competitividade, não por incapacidade da nossa indústria, mas por conta do custo Brasil”, afirma.

A solução para o gap tecnológico já está a caminho com o “Rota 2030”, lançado pelo Governo Federal, em 2018, que estabelece regras para a produção de veículos novos, com foco na economia de combustível, segurança e renovação da matriz energética [leia mais na seção Giro no Mercado, pág. 32]. “Toda mudança que acontece no equipamento original impacta diretamente o varejo de autopeças. Neste momento, o desafio para a reposição está em começar a preocupar-se com essas questões e entender quais serão as características dos carros nas próximas décadas”, explica Mufarej. Já a redução do custo Brasil dependerá exclusivamente de medidas a serem adotadas pelo novo governo.

 

União de forças

A visão do Sincopeças para 2019 é um pouco mais cautelosa. O crescimento deve figurar entre 2,5% e 3%, caso a reforma da previdência não seja aprovada no primeiro semestre ou entre 3% e 3,5%, com a aprovação mais rápida. “Nossa vantagem é que o varejo de autopeças crescerá uma média superior ao varejo em geral porque existe a demanda reprimida por conta da frota envelhecida. A diferença é que o perfil dessa frota é de um automóvel um pouco mais sofisticado, gerando tíquetes médios mais altos”, diz Francisco Wagner De La Tôrre, presidente do Sincopeças.

Como desafio, o presidente aponta a chegada de novos concorrentes sem o DNA do segmento e originados na internet, como é o caso da Amazon, tornando mandatório o investimento das autopeças em canais de vendas virtuais. Apesar da disputa mais acirrada, o cenário beneficia as empresas tradicionais porque o ponto de venda fixo dá credibilidade ao negócio e segurança ao consumidor. “Além disso, por não terem a cultura do segmento, essas empresas não entendem que o processo de venda de uma peça é totalmente diferente de uma roupa. É um momento de tensão em que o cliente está nervoso pelo carro quebrado, pela perda do dia de trabalho, pelo investimento não previsto no orçamento. Só quem nasceu atrás de um balcão sabe como contornar essa situação e diminuir a carga emocional deste momento.”

Também é preciso ficar atento às novas oportunidades de mercado, como os consumidores com mais de 60 anos que necessitam de atendimento diferenciado e aproximar-se das associações de classe que lutam por melhorias do setor. “Temos bandeiras importantes a serem negociadas em 2019, como a aprovação da inspeção veicular obrigatória para toda a frota, que poderá trazer um incremento no volume de negócios, a substituição tributária, a equiparação da tributação das peças do mercado de reposição com o mercado das peças originais e a missão de criarmos um catálogo de peças e produtos padronizado”, descreve. Outra vantagem de estar lado a lado com o sindicato é a oferta de qualificação, como o curso a distância para formação de balconistas desenvolvido em parceria com o Senac e o curso de tecnologia da informação, oferecido pela Impacta.

 

Crédito e informações técnicas

Quem também engrossa o coro da necessidade de um manual padronizado de peças e a implantação da inspeção veicular é o presidente do Sindirepa Nacional e Sindirepa-SP, Antonio Fiola. “A dificuldade de acesso às informações técnicas que as montadoras resistem em não fornecer atrapalha a realização do diagnóstico e do reparo. Existem carros que sem o código de fábrica não é possível fazer qualquer tipo de conserto”, alerta o dirigente. Além disso, ele ressalta como obstáculo para o setor a falta de capital de giro para movimentar e investir no negócio, decorrente da limitação de linhas de crédito condizentes com as necessidades do segmento.

O ano começa com ares de retomada também para a reparação. “Esperamos melhoras na economia com a volta do poder de compra do consumidor, e percebemos que as empresas estão reassumindo os investimentos, fator fundamental para o crescimento”, acredita Fiola. Com o mercado aquecido, é preciso acompanhar as mudanças no comportamento do consumidor, como o fato de ele estar cada vez mais conectado e buscar informações na rede antes de levar o carro para revisão. “Por isso, as oficinas devem ter site e fazer ações de divulgação nas redes sociais. O Sindirepa-SP, inclusive, criou o aplicativo GP Auto Service para cadastrar as oficinas associadas e estamos investindo em melhorias no sistema”, completa o presidente. Outras mudanças que impactam o segmento é a proliferação das modalidades de transporte individual por aplicativo e o desinteresse dos jovens em ter carro próprio. O Sindirepa Nacional também lidera um movimento com as associações de reparação da Argentina e Uruguai para as peças da reparação serem fornecidas diretamente pelas oficinas em vez das seguradoras.

 

Autoatendimento

Com o desenho de um cenário positivo prometendo deixar águas passadas para trás, sempre surge a dúvida: é hora de investir ou prudência e dinheiro no bolso não fazem mal a ninguém? A resposta é um pouco de cada. O diretor do IBVendas, Mário Rodrigues, explica que o varejo é muito sensível aos acontecimentos do mercado e por isso qualquer mudança pode interferir positiva ou negativamente no negócio. “A cautela ainda é necessária, mas não com um enfoque pessimista. Sugiro deixar o cofrinho de lado, mas sempre ao alcance das mãos para não perder oportunidades. Lembre-se: quem chega primeiro bebe água limpa.”

Para quem quiser apostar e sair na frente, Rodrigues afirma que iniciativas em automação para o consumidor são a tendência do varejo, uma vez que os clientes buscam cada vez mais por autonomia nas compras. “O consumidor confia mais em suas comunidades das redes sociais do que nos anúncios que colocamos na TV ou nos jornais. Ele, inclusive, tem liberdade para fazer a própria propaganda, de falar bem ou mal de determinadas instituições. Esse comportamento autônomo se reflete também no seu ambiente de compra, ou seja, o cliente quer decidir, comprar e pagar pelo produto sozinho.” E como ficam os vendedores nessa história? Para o diretor, os agentes de vendas terão papel essencial no processo, porém atuarão mais como facilitadores de compra do que como indutores de vendas e devem estar sempre a postos para esclarecer dúvidas e ajudar o consumidor quando necessário. Isso serve tanto para o ambiente físico quanto virtual.

Saber exatamente o que o cliente deseja e a hora certa de intervir na ação de compra não é tão simples assim. Porém, uma boa fonte de informações são os dados coletados sobre o comportamento de cada consumidor dentro da loja. Anotar a frequência, a quantidade de gastos, forma de pagamento preferida, os dados dos veículos, podem dar indícios de como atender esse consumidor. “O uso da tecnologia vai impactar fortemente esse processo, ajudando no manuseio e gestão dos dados para personalizar produtos e serviços”, avisa Rodrigues.

 

Cliente digital

Não adianta fugir. O mundo em 2019 não vai mais aceitar empresas offline. Não ter site e não usar o celular e aplicativos para se comunicar com os clientes são pecados imperdoáveis pelo mercado, e a penitência é a perda de clientes e faturamento. É preciso correr porque o universo virtual vem evoluindo em progressão geométrica e os concorrentes estão em qualquer parte do país. Apesar de ainda estar um pouco afastado do varejo de autopeças, a estratégia do omnichanel está presente nos negócios dos maiores varejistas do país e não tardará a atingir todos os segmentos de mercado. O omnichanel é a modalidade de negócio que integra diferentes canais em torno da realidade do consumidor, seja por celular, rede social, web ou físico. “Atualmente já estamos em um patamar superior ao omnichanel e já não basta mais ter vários canais de contato com o consumidor. O mercado já está partindo para a prática, ou seja, quais informações decorrentes desse contato com o cliente pode transformar-se em dados para aperfeiçoar o processo de venda”, conta a diretora executiva do Ibevar, Patrícia Cotti.

A diretora lembra que a maioria dos clientes é digital e ao abrir um novo canal de contato é preciso ter em mente as estratégias de como usar essa ferramenta.. “Não adianta fazer por fazer. Ter site, Facebook, Instagram e Twitter e não atualizar é pior do que não ter. Precisa pesquisar e entender o que o cliente deseja ouvir em cada um desses pontos de contato. Será que ele quer venda ou conteúdo? Isso faz toda a diferença na hora de elaborar seu plano de comunicação”, observa.

Outro segmento de mercado que merece atenção é do público com mais de 60 anos. Segundo dados do IBGE de 2018, 30,2 milhões de brasileiros estão na terceira idade e a projeção para 2027 é chegar a 37 milhões de pessoas. É um mercado potencial, com pessoas com poder aquisitivo e que desejam curtir a vida. “Ao contrário do que muitos imaginam, é um erro tratar esse público como velho. O marketing deve ser justamente o oposto: fazer com que se sintam jovens e inseridos no contexto do mundo atual. Essas pessoas têm 60 ou 70 anos, mas com cabeça e vigor de 40”, adverte Patrícia. As empresas que entenderem as necessidades desse público e investirem em comodidades que possam tornar a vida deles mais prática e fácil irão se destacar no mercado.

 

Akio, da Paraná Peças

 

Sinais de mudança

Para quem está há 49 anos no mercado, os altos e baixos da economia não assustam tanto. Walter Akio Morimoto, proprietário da Paraná Peças, de São Paulo (SP), acredita que ainda é cedo para tecer qualquer diagnóstico sobre o novo governo e que mudanças concretas só virão após a reforma da Previdência e a reforma fiscal. “Os brasileiros estão mais otimistas, então tenho esperança que a economia vai melhorar com a volta dos investimentos, mas nada a curto prazo”, diz. Para ele, o maior entrave do setor ainda é a fiscalização. “O Brasil é um dos líderes mundiais em falsificação de peças. Precisamos coibir a informalidade e tornar o segmento mais justo para quem trabalha dentro da legalidade”, destaca.

O principal plano da empresa para 2019 é ingressar no segmento de serviços. “Fizemos alguns estudos de mercado e iremos implementar serviços rápidos em nossa filial até o segundo semestre”, conta Akio.

 

Patrícia, da Patrícia Peças e Acessórios

 

Mercado aquecido

A frota envelhecida e a demora dos brasileiros em trocar de carro impactam positivamente o mercado de autopeças. Esse cenário beneficiou os negócios da Patrícia Peças e Acessórios, de Vitória da Conquista (BA), que registrou um incremento de 7% em 2018. “Este ano nossa expectativa é chegar a 10% de crescimento”, conta a proprietária Patrícia dos Santos Rocha.

Para ampliar sua atuação, a empresária pretende inaugurar ainda em 2019 uma filial e contratar novos funcionários. “Estou trabalhando neste projeto há oito anos. Tudo foi cuidadosamente planejado, a loja está quase pronta e o mercado aquecido, bons indícios de que este é o momento certo.” Segundo Patrícia, para o cenário ficar perfeito, o governo precisa investir em ações de incentivo ao financiamento a juros baixos e fazer uma revisão fiscal. Além disso, cita a dificuldade em encontrar mão de obra especializada como um entrave para o setor.

 

 

SAIBA MAIS

ANTONIO MEGALE (ANFAVEA)

(11) 2193-7800

www.anfavea.com.br

 

ELIAS MUFAREJ (SINDIPECAS)

(11) 3848-4848

sindipecas@sindipecas.org.br

www.sindipecas.org.br

 

FRANCISCO WAGNER DE LA TÔRRE (SINCOPEÇAS)

(11) 3287-3033

sincopecas@sincopecas.com.br

www.portaldaautopeca.com.br

 

ANTONIO FIOLA (SINDIREPA)

(11) 5594-1010

sindirepa@sindirepa-sp.org.br

www.portaldareparacao.com.br

 

MÁRIO RODRIGUES (IBVENDAS)

(11) 2094-4124

contato@ibvendas.com.br

www.ibvendas.com.br

 

PATRICIA COTTI (IBEVAR)

(11) 3894-5022

contato@ibevar.org.br

www.ibevar.org.br