Artigo
  Bem Que Faz Bem
  Caro Leitor
  Comportamento
  Divirta-se
  Em casa
  Entrevista
  Gestão
  Leves
  Mão na Massa
  Matéria de Capa
  Mercado
  Pesados
  Vitrine
  Edições Anteriores

  Mercado
Procurar
Todas as edições Somente nesta edição
 
Matéria de Capa
Onde foi que eu errei?
  Por Sandra Godoy

ERRAR É HUMANO. INSISTIR NO ERRO É AUTOSSABOTAGEM. A BOA NOTÍCIA É QUE, COM UM POUCO DE DISCIPLINA E DE TREINO, É FÁCIL ESCAPAR DAS ARMADILHAS QUE CRIAMOS PARA NÓS MESMOS

Copa do Mundo de 1994, Estados Unidos. Brasil e Itália disputavam a final, reeditando o histórico jogo do Mundial de 1970. Diferentemente do time tricampeão no México, o Brasil de Parreira chegou à final aos trancos e barrancos, graças principalmente ao oportunismo de Romário. Jogo empatado, vêm a prorrogação e os pênaltis. E não é que um dos maiores craques da época, o italiano Roberto Baggio, inexplicavelmente e para nossa alegria, chuta a bola para as arquibancadas? E o caso do francês Zidane, que em 2006 encerrou sua brilhante carreira com uma patética cabeçada no zagueiro italiano Materazzi, também na final da Copa da Alemanha?

Como sempre, o futebol nos mostra exemplos de atitudes comuns do lado de fora do gramado. Quantas vezes você não se pegou assaltando a geladeira à noite, em plena dieta? Sem contar as pessoas que insistem em relacionamentos idênticos ao longo da vida, reclamando que não têm sorte no amor. Outros se sabotam nos estudos, tendo “brancos” na hora das provas, mesmo sabendo tudo. E há aqueles que se sabotam na carreira, fazendo de tudo –inconscientemente– para não ser promovidos e ficar na chamada zona de conforto, ou seja, estagnados.

Nos negócios, é a mesma coisa. Muitas vezes, o empresário tem a chance de crescer, aumentar o faturamento e simplesmente joga tudo por água abaixo, faltando a uma reunião importante com um grande cliente ou com o gerente do banco, por motivos como errar o caminho ou esquecer-se de abastecer o carro. Há também aqueles que insistem em comprar de fornecedores inidôneos, vender para clientes inadimplentes, contratar funcionários mal-preparados, enfim, colocando em risco não apenas o crescimento, mas a própria sobrevivência do negócio.

PERFIL DO AUTOSSABOTADOR

No livro “Pare de Se Sabotar no Trabalho e Ajude os Outros a Fazer o Mesmo”, o psiquiatra americano Mark Goulston elabora uma lista de 40 comportamentos do autossabotador, que podem prejudicar –e muito– a carreira e os negócios. Claro que alguns desses comportamentos fazem parte da rotina de uma empresa, vez por outra.

O problema é quando eles se tornam muito repetitivos e você não consegue quebrar este ciclo. Veja se você não anda marcando muitos gols contra. Confira alguns deles:

- Adiar tarefas e decisões
- Ficar na defensiva
- Inventar desculpas
- Estar despreparado
- Entrar em pânico
- Perder tempo
- Achar-se indispensável
- Ser mau ouvinte
- Não delegar
- Ter medo de aprender coisas novas
- Desistir facilmente (medo de assumir responsabilidades)
- Agradar a todos
- Reagir mal a um “não”
- Ter medo de demitir
- Ser impulsivo
- Frustrar-se constantemente
- Focar pontos fracos
- Sentir-se culpado pelo sucesso
- Não aprender com erros

Para entender tais atitudes que funcionam como gol contra na vida pessoal e profissional –e como se livrar delas–, a reportagem da Revista Pellegrino entrevistou dois especialistas nesta área: o consultor Rodrigo Cardoso, palestrante e autor de livros sobre motivação e comportamento, e o professor Sigmar Malvezzi, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Consultamos também dois livros recentemente lançados que tratam do assunto: “O Ciclo da Autossabotagem”, de Stanley Rosner, e “Pare de Se Sabotar no Trabalho e Ajude os Outros a Fazer o Mesmo”, de Mark Goulston, ambos da editora Best Seller.

REPETIÇÃO DE ERROS Autossabotagem é o nome desse comportamento destrutivo. A palavra “sabotagem” vem do francês “sabot”, que significa “tamanco”. O termo “sabotage” surgiu a partir da revolução industrial, nos primórdios do capitalismo, e aparentemente se originou do ato de trabalhadores grevistas e descontentes que intencionalmente jogavam seus tamancos nas máquinas para causar danos e paralisações. 

A autossabotagem funciona da mesma forma. A pessoa joga contra si mesmo, como se tivesse um “diabinho” nos ombros falando o tempo todo que as coisas não vão dar certo. “Autossabotagem é uma atitude inconsciente, produto de um sentimento de culpa, muitas vezes nascido na infância, que provoca a certeza de que a pessoa não merece coisas boas (como o sucesso da empresa); então, ela estraga tudo”, explica o professor Malvezzi.

Rodrigo Cardoso acredita que nossos “sabotadores internos” vêm da necessidade básica do ser humano em conquistar o amor dos pais. “A pessoa começa a repetir padrões negativos, como se falasse: ‘olha como sou parecido com vocês’, ou então vira um rebelde, fazendo o contrário para provar que é digno de amor”, avalia. Freud explica.

No livro “O Ciclo da Autossabotagem”, o psicólogo americano Stanley Rosner dá exemplos de pessoas que repetem na vida adulta comportamentos destrutivos aprendidos na infância. “Geralmente, é um sentimento de culpa por ter uma vida melhor que a dos outros, ou uma sensação de não merecer tanto”, define. 

MEDO DA MUDANÇA Rosner diz também que uma das características do autossabotador é o medo da mudança. “Sabemos, sentimos, queremos mudar, porém a perspectiva de causar transtorno em nossa estabilidade é assustadora”, afirma. A pessoa passa a se questionar: “E se der certo? Ai, que medo. Talvez, então, eu tenha de mudar. Mas é tão bom fazer tudo da mesma maneira, para que arriscar?”.

Sistema de cadastro eficaz

Quem não errou um dia? Seja por autossabotagem ou falta de experiência,
necessidade de atender o cliente com urgência, o importante é transformar
o deslize em oportunidade para aprender. Que o diga José Carlos
Marques, da Pajomar Autopeças, de Curitiba (PR). Ele conta que há cerca
de seis anos penou por falta de experiência e excesso de confiança. “Montamos
um autocenter e não tivemos o resultado esperado.” Não podendo
acompanhar os negócios do autocenter e das lojas simultaneamente, teve
dificuldade para o novo negócio alavancar. “Chegamos à conclusão de que
o nosso perfil sempre foi autopeças e não prestação de serviços.” Para não
se surpreender no final do mês com inadimplências, montou um sistema
de cadastro eficaz, que foi melhorando dia após dia. “Atendemos todos os
tipos de clientes; então, é preciso saber qual a necessidade de cada um,
até mesmo para facilitar os recebimentos.” José Carlos é sócio com a
esposa Marilena de uma loja com 1.500 metros quadrados e uma equipe
de 17 colaboradores. Estão no mercado de autopeças há 17 anos.

Rodrigo Cardoso acrescenta que é mais fácil conviver com a dor do conhecido do que com a possibilidade da mudança. “É aquela história do ‘está ruim, mas se mudar pode piorar’. Por isso o sucesso apavora tanto, pois ele simboliza o novo”, reflete. Para Stanley Rosner, o fracasso pode ser merecido ou fruto de má sorte, mesmo. “Mas, quando acontece repetidamente, alguma coisa está errada”, adverte.

O professor Malvezzi, da USP, diz que a autossabotagem é um assunto até agora pouco estudado. Assim como os traumas da infância, que podem influenciar toda a trajetória da vida – mesmo sendo difícil entender como episódios ocorridos há tanto tempo nos afetam na vida adulta–, ele soma as mudanças pelas quais a sociedade vem passando nas últimas décadas como causas para este comportamento.

“O mundo tornou-se mais complexo, com os novos parâmetros de qualidade e desempenho, que obrigam o indivíduo a dar conta da rotina, criar novos projetos, administrar crises, vencer o concorrente e ainda ter vida pessoal.” Por conta dessas novas demandas, explica, as pessoas acabam tendo dificuldade em separar o urgente do importante e, na roda-viva do cotidiano, esquecem de olhar para si mesmas.

AUTOCONHECIMENTO Mas como saber se você está jogando contra si e contra seu negócio? A primeira coisa a fazer é se perguntar: quais são as atitudes e circunstâncias repetitivas que sempre me prejudicam? Outro estudioso do assunto, o psiquiatra americano Mark Goulston é autor do livro “Pare de Se Sabotar no Trabalho e Ajude os Outros a Fazer o Mesmo”. Ele lista quarenta condutas de autossabotagem mais comuns (veja algumas no quadro da página 24) e apresenta dicas para ajudar a mudar de atitude no trabalho. “Embora fracassar na vida profissional traga infelicidade, o sucesso não garante a felicidade”, provoca o autor.

Segredo está na compra

Para Paulo Ney Moreira, proprietário da Deu Certo Peças, do Rio de Janeiro (RJ), o segredo para o sucesso nos negócios está na compra dos produtos. Ele procura sempre fabricantes e distribuidores idôneos, com comprovada reputação no mercado, porque já teve problemas no passado.

“Há uns dez anos, comprei um lote de rolamentos de roda da picape Ranger, mas tive que devolver tudo porque não prestavam”, lembra. Como comprou de terceiros, não teve com quem reclamar. Paulo Ney prefere, como diz, “perder a venda a perder na venda”.

“Se eu não tiver a peça, deixo de vender, mas se eu tiver uma peça de má qualidade, o cliente devolve e não volta nunca mais”, teoriza. Para não ter problemas, ele prefere investir no estoque, indo na contramão dos que defendem o giro rápido. “Se meu cliente quebra na estrada, não vai poder ficar esperando dias e dias pela peça. Ao atendê-lo na hora, ganho sua fidelidade”, afirma. 

Segundo Goulston, entre os comportamentos que denunciam seu sabotador interno estão: procrastinar (adiar tarefas e decisões), ficar na defensiva, perder tempo (aquela sensação de ter trabalhado muito mas não ter sido produtivo), inventar desculpas por não ter feito determinada tarefa (como ligar para os clientes), não delegar, ter medo de aprender coisas novas, ter medo de demitir, sentir-se culpado quando as coisas vão bem (e achar que não merece o sucesso) e, muito importante, não aprender com os erros.

O consultor Rodrigo Cardoso explica que em suas palestras e cursos ele sugere que as pessoas prestem muita atenção em si mesmas, em suas atitudes e na reação dos outros. “Para sair do padrão negativo, peço que visualizem seus desejos, que chamo de ‘quadro dos sonhos’. Assim, ao colocar no papel, a mudança deixa de ser algo obscuro e amedrontador.” Rodrigo propõe escrever tudo o que se quer ter: o tipo de cliente, o faturamento, o padrão de qualidade do atendimento, enfim, apenas aspectos positivos. Ele garante que o exercício ajuda a espantar aquela voz sinistra do “não vai dar certo”, e em seu lugar cria a sensação do “prazer da mudança”.

Stanley Rosner acredita que é preciso lidar com nossos sabotadores internos sem medo, olho no olho. E questioná-los sobre o que querem cada vez que algo dá errado, prestar muita atenção nos fracassos recorrentes na vida. A principal questão é: por quê? “Arrume um tempo e sente-se calmamente, de preferência quando não houver ninguém à sua volta, em uma sala, sozinho”, aconselha o psicólogo em seu livro.

O professor Sigmar Malvezzi também acha que, com a correria do diaa- dia, as pessoas se esquecem de fazer uma autorreflexão periodicamente. Nem sempre é necessário procurar ajuda profissional, como a de um psicólogo, mas o simples fato de prestar atenção em determinadas atitudes e o número de vezes que elas se repetem pode dar uma dica do que está se passando. “Como as pessoas estão sempre apressadas para cumprir metas, tudo no curto prazo, movidas pelo excesso de informações, o indivíduo perde sua identidade. Por isso, deve desenvolver sua consciência através da reflexão.”

O consultor Rodrigo Cardoso diz que o maior desafio para acabar com a autossabotagem é o que chama de “estado de presença”: “Precisamos ficar atentos àquela voz interna que nos fala para deixar tudo como está. Quando prestamos atenção nesta voz e observamos nossas atitudes, fica mais fácil eliminar a autossabotagem de nossa vida”, garante.

SEM MEDO DE CRESCER

Quem nunca se sabotou um dia? No entanto, para que um deslize não
se torne um padrão de comportamento prejudicial à sua vida e à empresa,
criamos, a partir dos livros e especialistas consultados, uma lista de dicas
para tocar a bola para frente:

- Abrir-se para mudanças
- Associar prazer às conquistas e realizações para perder o medo de
mudança
- Ficar atento aos comportamentos repetitivos
- Aprender a separar o urgente do importante
- Desenvolver a autoconsciência a partir da reflexão
- Estimular a afetividade
- Fortalecer-se como sujeito autônomo, com elevada autoestima
- Definir metas menores e cumpri-las por etapas
- Listar realizações que são motivos de orgulho
- Avaliar os pontos fortes
- Enfrentar o passado
- Esquecer a perfeição

DEPOIS DO EXPEDIENTE Mas quando parar e pensar? Para o professor da USP, não precisa ficar se autoanalisando durante o horário de trabalho, quando a loja está cheia. Ele sugere que este momento de reflexão deve acontecer depois do expediente, a começar pela análise das atitudes que se repetem com mais freqüência –os “esquecimentos”, a crença de que desta vez o cliente vai pagar em dia, mesmo com o histórico desfavorável, acreditar que aquele fornecedor que tem um preço incrivelmente baixo trabalha com produtos de qualidade, e que aquele funcionário não muito aplicado desta vez vai levar o trabalho a sério. Ele sugere também cuidar de si. “É preciso estimular a afetividade, dedicar-se a atividades diferentes do trabalho, enfim, tem que se descobrir como sujeito, alguém autônomo, que escolheu a opção de crescer”, conclui.

SAIBA MAIS

RODRIGO CARDOSO
(11) 5055-4093
rodrigo@rodrigocardoso.com.br
www.rodrigocardoso.com.br

SIGMAR MALVEZZI
(11) 3091-4361
sigmar@usp.br
www.ip.usp.br

 
 
Classifique esta matéria
Ótimo Muito Bom Bom Ruim Muito Ruim

Veja o que já saiu sobre Matéria de Capa
  Críticas e sugestões para a Revista Pellegrino: revista.pellegrino@pellegrino.com.br
Copyright - Revista Pellegrino - todos os direitos reservados
Aventuras de um superbalconista
O poder da gentileza
Como avaliar sua equipe?
Planejamento estratégico: a arte de antecipar as jogadas
Aventuras de um superbalconista
Sucessão: o ideal é antecipar-se
Veja edições
anteriores da
Revista Pellegrino
Mande suas críticas e sugestões para a Revista Pellegrino

Clique Aqui
Digite seu e-mail abaixo para receber as novidades da Revista Pellegrino.