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Chega de tanto papel
  Por Paulo Carneiro

ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL DIGITAL (SPED), QUE LOGO SERÁ OBRIGATÓRIA PARA TODA EMPRESA, NÃO DEIXA MARGEM PARA ENGANOS E SONEGAÇÃO

A rotina administrativa das empresas passará por uma mudança radical com a implementação do Sistema Público de Escrituração Digital Contábil (SPED), que começou a ser usado em janeiro de 2009 naquelas optantes pelo lucro real. No setor de autopeças, existe uma movimentação em busca das ferramentas necessárias a fim de evitar multas e outros tipos de pressão a que estarão sujeitas as que tiverem dificuldades de adaptação. Especialistas, consultores e líderes empresariais, contudo, afirmam que a mudança é positiva, além de ser inevitável. Como diz a canção de Milton Nascimento, nada será como antes, exceto a cobrança e o pagamento de impostos, que apenas ganham nova sistemática de fiscalização.

Na opinião do diretor financeiro do Sincopeças-SP, Álvaro Pereira, o empresário não tem o que temer, mas precisa ficar atento aos novos procedimentos, pois a escrituração contábil digital vai deixar os olhos da Receita cada vez mais próximos da contabilidade das empresas. “Através desse processo, o fisco tem acesso às informações praticamente online. O sistema torna-se uma arma contra o atraso nas informações recebidas e contra os possíveis sonegadores de impostos”, completa. Álvaro, que é também proprietário da Alvamar, em São Paulo (SP), esclarece ainda que, no momento, a adesão é obrigatória apenas para empresas que optarem pelo lucro real, “mas num futuro breve todas estarão sujeitas ao SPED”.

De acordo com o dirigente do Sincopeças, é preciso ter cuidado com a documentação legal e aceitar algumas mudanças de hábitos, principalmente nas empresas de porte médio e familiar “que confundem o caixa corporativo com o caixa dos sócios”. Álvaro Pereira deixa claro que as empresas que não se adaptarem ficarão expostas a penalidades, já que o sistema “requer mudanças profundas dentro do cenário contábil e fiscal”. O lado positivo, segundo ele, é que o SPED trata de uma maneira legal a escrituração em tempo real e evitará o excesso de informações solicitadas pelo governo. “Possivelmente, isto vai acabar com a Declaração de Imposto de Renda, DCTF, DIRF, DACON e outras mais”, diz.

Positivo

O empresário Antonio Edson Freitas de Almeida, da Cobapa, em Feira de Santana (BA), acredita que todo o mundo pode sair ganhando com o SPED. “Acho positiva a iniciativa do governo de implementar a nota fiscal eletrônica por várias razões. A principal se refere ao combate à sonegação, que infelizmente ainda é muito grande em nosso setor”, diz. Segundo ele, todas as providências já foram tomadas para a implementação do sistema em sua empresa, mas isto só vai acontecer a partir de março. “É que nós tínhamos um estoque de notas fiscais e achei por bem utilizálas antes.” Para Antônio Edson, o SPED será uma prática definitiva. “Estamos certos de que daqui para a frente não haverá mudanças, o que é muito positivo.”

Também o consultor da Associação Comercial e Empresarial de Guarulhos (ACE), Wilson Giglio, vê com otimismo os horizontes abertos com a introdução do SPED. “Todas as empresas, em breve, estarão enquadradas, independentemente do tamanho ou forma de tributação. Com isso, o governo terá em mãos todos os dados, inclusive balanços contábeis e toda a movimentação fiscal e financeira das empresas”. Segundo Giglio, o arquivo digital deve ser elaborado pelas empresas, utilizando-se dos seus próprios recursos e do plano de contas referencial, constante do anexo único da instrução normativa. Tudo deve ser submetido ao Programa Validador e Assinador (PVA), que realiza a validação do conteúdo, assinatura digital e transmissão, como também possibilita a visualização e back­up da escrituração.


Controle mais rigoroso

Para o presidente do Sescon-SP,José Maria Chapina Alcazar, são necessários alguns cuidados fundamentais para a sobrevivência das empresas, como um controle mais rigoroso de registros contábeis e fiscais, ampliação da cultura de gestão; investimentos em processos de informática; qualificação dos funcionários para trabalhar nos novos ambientes digitais; e máxima organização financeira.

“Com o cruzamento das informações contábeis e fiscais, as empresas ficarão cada vez mais vulneráveis à “malha fina”. Invertem-se os papéis: o fisco não vai mais até a empresa para fiscalizar, mas é a própria empresa que fornecerá os dados em ambiente eletrônico para ser fiscalizada. Isto torna mais céleres as fiscalizações e praticamente acaba com as prescrições e decadências”, prevê.

TEMPO REAL Este aspecto é destacado também pelo advogado Eduardo Galvão, especialista em tributação do escritório Pires & Ribeiro Advogados Associados, de São Paulo (SP). “É necessária especial atenção a essa nova forma de relacionamento com o fisco. As informações do contribuinte ficarão à disposição da autoridade fiscal de forma muito mais rápida. A análise das informações do contribuinte, que antes dependiam do trabalho de um fiscal, agora poderão ser feitas de forma eletrônica e em tempo real”, afirma.

Galvão alerta que as empresas que não atualizarem seu banco de dados em relação às constantes mudanças na alíquota do IPI, por exemplo, poderão cair nessa nova malha fina com facilidade, uma vez que as alíquotas estão vinculadas à classificação fiscal da mercadoria. “Uma simples checagem eletrônica feita pela Receita Federal poderá facilmente detectar o erro logo após o envio da Nota Fiscal Eletrônica, inclusive.”

Galvão enfatiza que o objetivo do SPED não é somente acabar com o uso do papel, mas criar uma eficiente ferramenta de fiscalização à disposição da administração tributária. Para ele, todo mundo precisa se preparar.

MÃO NA MASSA “Não só o empresário deve se adaptar aos novos tempos, mas também o contador, que deverá atualizar-se constantemente em virtude das várias alterações quanto ao tipo de empresa, ramo de atividade e formas de tributação”, afirma. O consultor diz ainda que todos os dados do movimento financeiro das empresas e pessoas físicas estará sendo armazenado na Receita Federal, bem como no Banco Central e secretarias estaduais da Fazenda. “Não há margem para sonegação ou omissão de receitas. O empresário, responsável direto por estas informações deverá aprender, definitivamente, a recolher todos os tributos devidos. Além disso, deverá investir em softwares e equipamentos que atendam a legislação, de acordo com as orientações do contador.” Giglio recomenda que todas as empresas se preparem para evitar os reflexos tributários e a aplicação de possíveis penalidades.


Tendência mundial

Ao comentar a troca do sistema tradicional pelo SPED, o empresário João Pelegrini, proprietário da Casa do Chevrolet e Casa da Transmissão, em Uberlândia (MG), observou que toda mudança traz um pouco de resistência, mas considerou positivo o fato de se estabelecer mais velocidade nas relações com o fisco.

“Trata-se de uma tendência mundial e não podemos ficar de fora. Só espero que haja bom senso. Vamos ter que investir em equipamento e em software e já estamos fazendo as conversões no sistema em nossas empresas”, diz.

Segundo ele, o sistema será testado antes para que não haja problemas quando entrar em operação. “A questão do pagamento de impostos para nós não é problema. Temos tudo de forma muito transparente. É como se nosso CPD estivesse na Receita Federal.”

Pelegrini acha correta a mudança, desde que todos se adaptem, inclusive os concorrentes. “A regra tem de valer para todos. Sem privilégios.”

Por sua vez, o presidente do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas no Estado de São Paulo (Sescon-SP), José Maria Chapina Alcazar, diz que a “inteligência fiscal” vai ampliar a presença e a eficácia da fiscalização tanto na área federal quanto na estadual e municipal. Para Alcazar, essa evolução já é observada em outras áreas, como o sistema bancário e as eleições por voto eletrônico. “A tendência é acabar com os processos em papel não só da fiscalização, mas de todos os setores e atividades. A escrituração fiscal digital, escrituração contábil digital e nota fiscal eletrônica preconizam a extinção de formulários, livros etc., substituindo por um eficiente sistema eletrônico de informações.”

SAIBA MAIS

ÁLVARO PEREIRA (SINCOPEÇAS-SP)

(11) 3229-4016
alvamar@alvamar.com.br
www.sincopecas.org.br

WILSON GIGLIO (CONSULTOR)
(11) 2461-4841
wilson@sosempresarial.com.br
www.sosempresarial.com.br

JOSÉ MARIA CHAPINA ALCAZAR (SESCON-SP)
(11) 3304-4400
secretaria@sescon.org.br
www.sescon.org.br

EDUARDO GALVÃO (PIRES & RIBEIRO ADVOGADOS ASSOCIADOS)
(11) 3473-4547
eduardo@piresribeiro.adv.br
http://piresribeiro.adv.br

 
 
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