Mulheres na Oficina
Escrito por Pellegrino -
Cada vez mais mulheres lideram as oficinas mecânicas, quebrando padrões e ganhando destaque no setor automotivo. Um mercado promissor que demanda atenção estratégica do varejo de autopeças
Por Regina Ramoska
Foi-se o tempo em que havia distinção entre profissões masculinas e femininas. Atualmente, elas fazem valer a máxima “lugar de mulher é onde ela quiser”. Vistas anteriormente apenas como consumidoras ou donas de veículos, hoje, as mulheres ocupam posições de destaque como mecânicas, funileiras e empresárias no segmento automotivo.
Cursos técnicos e iniciativas de inclusão têm sido fundamentais para capacitar as profissionais, oferecendo formação de qualidade. Os cursos do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), por exemplo, sempre foram destaque, embora o público fosse majoritariamente masculino. Na Escola do Mecânico, fundada em 2011 pela empresária Sandra Nalli, 10% dos alunos são mulheres, número ainda pequeno, mas com tendência a crescer. “Temos habilidades diferentes dos homens, que, na maioria dos casos, agem mais pela razão. Conseguimos transitar bem entre emoção e razão, devido à nossa natureza feminina”, afirma.
Quando Bárbara Brier mergulhou nesse universo, não pensava em seguir carreira, mas em garantir o sustento da família. A mineira superou o machismo, a resistência familiar e a falta de apoio para construir um negócio inovador que transforma a vida de mulheres e oficinas mecânicas em todo o Brasil. Aos 19 anos, já dava aulas de mecânica em um ambiente predominantemente masculino. O preconceito por ser mulher e jovem a acompanhou desde o início da carreira. “Teve aluno que não queria participar da minha aula”, relembra.
Criada em um ambiente familiar com mulheres independentes, Bárbara aprendeu a ignorar o machismo. “Minha avó, minha mãe, elas foram minhas referências de resistência”, conta. Foi nesse ambiente desafiador que ela encontrou sua vocação e uma oportunidade de negócio. Após anos trabalhando em concessionárias, Bárbara decidiu empreender. Começou vendendo manuais de carros antigos e, a pedido de amigas, passou a dar workshops de mecânica básica para mulheres.
A paixão pelo ensino e a vontade de empoderar outras mulheres a levaram a criar a Oficina Amiga da Mulher. O projeto oferece treinamento e certificação para oficinas mecânicas que se comprometem a atender ao público feminino com respeito, transparência e qualidade. “As mulheres querem se sentir confiantes na hora de levar o carro para a oficina”, explica Bárbara. “Elas reclamavam que não eram bem tratadas, que não entendiam o que os mecânicos falavam.”
A Oficina Amiga da Mulher aborda desde a comunicação e a postura da equipe até a organização do espaço físico e a gestão do negócio. “É um processo de conscientização. As oficinas que participam do projeto começam a entender a importância de atender bem as mulheres e se sentem motivadas a melhorar.” Hoje, com mais de 110 oficinas credenciadas em todo o Brasil, o projeto é um sucesso. “As mulheres sempre estiveram lá, mas agora estão mais empoderadas, mais visíveis.”
Cheias de graxa
É o caso de Keren Pereira da Silva, 35 anos, referência em câmbio automático no Brasil. Sua trajetória, marcada por desafios e superação, começou na oficina do pai, que sonhava em vê-la de salto alto exercendo a função de secretária bilíngue. O cheiro de graxa falou mais alto. Determinada a mostrar seu valor mesmo ocupando a função de telefonista, ela se aprofundou no mundo da mecânica, buscando conhecimento com os outros funcionários.
Keren enfrentou desconfiança, mas nunca desistiu. “Achavam que eu queria arrumar marido na oficina”, destaca. Com o apoio de clientes e amigos, hoje ela é reconhecida por seu profissionalismo. Recebe carros de todo o Brasil, tamanha é a sua habilidade. Sua paixão pela mecânica se estende para além da oficina. Keren é criadora do grupo Cheias de Graxa, uma rede de apoio virtual para mulheres que atuam no setor automotivo. O grupo, que conta com advogadas, contadoras e outras profissionais, oferece um espaço de troca de experiências e aprendizado. “A gente compartilha informações e se apoia nos momentos difíceis”, explica Keren. “É uma forma de mostrar que a união faz a força e que juntas podemos conquistar o nosso espaço.”
Uma das integrantes do grupo é Cintia Queiroz, 26 anos, que ingressou como auxiliar em uma concessionária e recentemente foi promovida à mecânica. Não foi assim, de cara, que tudo começou. Cintia gostava de carros desde criança, mas só percebeu que poderia trabalhar na área quando se mudou para Feira de Santana (BA) e cursou o técnico de mecânica. “Recebi muitos nãos antes de ter a chance de mostrar minha capacidade”, afirma. Para ela, a presença feminina traz um diferencial importante, mesclando sensibilidade e atenção aos detalhes, essenciais para o bom atendimento e a qualidade do serviço.
A primeira
Depois de ser enganada em uma revisão automotiva, pagando por uma troca de filtro de ar-condicionado em um carro que sequer possuía o aparelho, Agda Óliver abandonou o trabalho no banco, se profissionalizou em mecânica automotiva e gestão empresarial, e tornou-se proprietária, em 2010, da única oficina mecânica voltada para mulheres na cidade de Ceilândia (DF) e a primeira do Brasil: a Meu Mecânico.
“Encontrar pessoas que acreditassem no meu projeto e tivessem o mesmo ideal de transparência, compromisso e ética foi um dos meus maiores desafios”, relata. A dificuldade de encontrar mulheres mecânicas ainda persiste, embora ela tenha conseguido formar uma profissional em sua equipe, investindo em sua capacitação.
Hoje, a equipe da Meu Mecânico é composta de quatro mulheres e três homens, e Agda se orgulha de criar um ambiente acolhedor. No entanto, ela ainda enfrenta preconceitos, com alguns clientes insistindo em falar apenas com homens. “É uma jornada diária provar que somos capazes”, lamenta.
Multitarefa
Denise de Carvalho, residente em São João da Boa Vista (SP), é sócia-proprietária da oficina mecânica Connection Custom. Ela ingressou na profissão para trabalhar ao lado do marido e sempre foi apaixonada pelo mundo automobilístico. Hoje, considera a oficina como sua casa. Sua motivação é ver os resultados diários, com excelência nos serviços executados. Nem tudo são flores, claro. Denise aprende dia após dia a interagir em um mundo ainda cheio de preconceitos, mesmo estando capacitada nas áreas técnica e de gestão. Ela acredita que a mulher é sinônimo de dedicação, força e capacidade de resolver múltiplas tarefas sem perder o foco. “As mulheres são conscientes, avaliam todos os ângulos e são a soma de um resultado de sucesso.”
Vocação
Aos 24 anos, Rieli Freire gere a Garagem R Motors, na zona leste de São Paulo. Sua ligação com a mecânica começou aos 15 anos, na oficina do pai. No auge do Ensino
Médio, se sentia insegura quanto ao caminho a ser trilhado. Vendo seu dilema, o pai sugeriu um ano sabático para refletir, estudando e explorando outros cursos. Durante meses ajudando na oficina familiar, e foi ali que se encontrou.
O começo não foi fácil. Mesmo com as dificuldades iniciais, como carregar peças pesadas e lavar componentes, ela persistiu. Fez um curso rápido e não parou por aí. “Fui atrás do técnico em Manutenção Automotiva no Senai e passei em primeiro lugar”, lembra. No Senai, Rieli aprendeu não só sobre mecânica, mas também sobre administração, recursos humanos e comunicação. “Foi um mundo novo pra mim, e eu adorei. Sempre tive facilidade de me comunicar e vender, e vi que podia aplicar isso na mecânica”, relembra.
Em 2020, Rieli deu o passo empreendedor e regularizou administrativamente a Garagem R Motors, profissionalizando o negócio em parceria com o pai. Depois, no tecnólogo em Sistemas Automotivos, aprofundou os conhecimentos em gestão de oficinas e concessionárias. No início, os principais desafios de Rieli eram o preconceito e a discriminação. Magrinha e franzina, enfrentou não só o trabalho físico pesado, mas a desconfiança. “Já tive caso de cliente não querer que eu mexesse no carro dele e até clientes que não queriam que eu apertasse uma roda, achando que não faria direito”, relembra. Apesar dos comentários que questionavam sua capacidade, ela persistiu.
Hoje, a confiança é uma conquista celebrada, com novos clientes vindo especialmente por meio de suas redes sociais e indicações.
Já Amanda Medeiros, filha de mecânico, cresceu em oficinas e se tornou sócia do irmão. Durante a pandemia, ao atuar como contadora e consultora, ajudou uma oficina à beira da falência a reestruturar a gestão financeira. Com o sucesso, ela decidiu dedicar-se exclusivamente ao setor automotivo. Lançou o livro Do zero ao lucro, sucesso na Amazon, e agora expande sua expertise para mecânicos, em Portugal, que enfrentam desafios de gestão.
Duas rodas
Michele Rodrigues, 39 anos, inaugurou sua oficina, a Motomi, em Pindamonhangaba (SP), em 2022. A paixão pela mecânica nasceu na infância, influenciada pelo pai, que tinha uma oficina em casa. Após um acidente de moto em 2017, que a deixou em recuperação por três meses, Michele encontrou na mecânica uma forma de se reerguer.
Fez um curso de ensino a distância e viu que aquela era, de fato, sua praia. Em 2021, ganhou uma bolsa para um curso no Instituto Brasileiro de Mecânicas de Motocicletas (IBMM).
Após trabalhar em uma concessionária, Michele decidiu realizar o sonho de ter uma oficina própria e abriu a Motomi. “Meu diferencial é a clareza com que explico os serviços. Mostro fotos e vídeos do antes, durante e depois, criando uma relação de confiança.”






































