Respire com segurança
Escrito por Pellegrino -
Associações do mercado de autopeças e de inspeção veicular avaliam a importância da IVA, ou ITV, para uma melhor qualidade do ar e segurança viária
Por Thalita Battistin
Segundo o Ministério da Saúde, entre 2019 e 2021, mais de 300 mil pessoas morreram no Brasil por doenças respiratórias causadas por fumaça e poluição. O ar poluído pode causar enfermidades no sistema respiratório, como resfriados, gripes, faringites, sinusites e agravar doenças já instaladas, como pneumonia e tuberculose, e afetar o coração. A poluição do ar é uma mistura de poluentes de fontes naturais e das originadas pelo homem, por exemplo, em queimadas, no uso de agrotóxicos e na queima de combustíveis dos veículos. Este último gera a emissão de dióxido de carbono (CO2), contribuindo para o efeito estufa e promovendo as mudanças climáticas.
Em 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou ação que determinou que o Brasil tenha um ar menos poluído a partir deste ano, e o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) instituiu prazos para essa nova norma. Com a mudança, o país se aproxima do valor estabelecido como aceitável pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Antes, para cada metro cúbico eram tolerados 20 microgramas de poluentes na atmosfera. Agora, o número caiu para 17 e seguirá assim até 2033. Depois, o limite descerá para 15 e, em 2044, para 10. O plano em longo prazo visa alcançar a meta ideal da OMS, que é de 5 microgramas por metro cúbico. Também no ano passado, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou lei que cria a Política Nacional de Qualidade do Ar (Lei nº 14.850/24), que institui mecanismos para monitorar a qualidade do ar no país e a divulgação dos dados para a população.
Em meio a tantas movimentações em prol do meio ambiente, especialistas debatem a importância Inspeção Técnica Veicular (ITV), ou Inspeção Veicular Ambiental (IVA), periódica como ferramenta para garantir que carros mais antigos e veículos recuperados após enchente estejam aptos a rodar sem comprometer o meio ambiente e a segurança viária. A revista Pellegrino ouviu a opinião do Sindicato do Comércio Varejista de Peças e Acessórios para Veículos (Sincopeças) do Estado de São Paulo e do Brasil, do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios (Sindirepa) do Estado de São Paulo e do Brasil e da Federação Nacional dos Organismos de Inspeção Veicular (Fenive), que analisaram os desafios para a implementação de um programa eficaz de inspeção no Brasil e os impactos para motoristas, oficinas e mercado de autopeças.
Sincopeças Brasil
Desde que seja conduzida de forma técnica, transparente e com abrangência nacional, o Sincopeças Brasil avalia como positiva e necessária a ITV. “A inspeção contribui diretamente para a redução da emissão de poluentes, estimula a cultura da manutenção preventiva e reduz riscos associados ao uso de veículos em más condições. Além disso, é uma medida que pode gerar impactos positivos no setor automotivo como um todo, especialmente no mercado de reposição, ao promover responsabilidade e eficiência técnica”, destaca o presidente do Sincopeças Brasil, Ranieri Leitão. A inspeção veicular pode movimentar positivamente a cadeia do aftermarket automotivo, em especial o comércio de autopeças e a reparação automotiva. Segundo Ranieri, ao exigir a conformidade ambiental e mecânica dos veículos, amplia-se a demanda por peças e componentes que garantam o funcionamento adequado do veículo. “Esse estímulo à manutenção corretiva e preventiva aquece o mercado, impulsiona a qualificação técnica de oficinas e mecânicos e fortalece o papel dos distribuidores e varejistas de autopeças no processo de inspeção e reparação da frota circulante.” Uma oportunidade também para o setor promover a conscientizar os motoristas sobre os benefícios da manutenção regular e do uso de peças de qualidade. “Campanhas educativas e treinamentos podem reforçar a importância de realizar reparos com responsabilidade, valorizando oficinas bem-preparadas e as peças certificadas. Isso gera valor para o setor e segurança para a sociedade”, afirma Ranieri.
Sincopeças-SP
Para o Sindicato, a ITV representa um avanço no mercado automotivo nacional. “Com o envelhecimento da frota, é necessário realizar ações que garantam as condições de tráfego dos veículos, especialmente em relação aos itens de segurança, como freios e suspensão, e de emissões de gases”, explica o presidente do Sincopeças-SP, Heber Carvalho. O mercado de autopeças, principalmente o de reposição, será diretamente impactado pela ITV em razão da busca de novas peças, como catalisadores, sensores de oxigênio, velas de ignição e filtros de ar. “Certamente, essas peças serão as de maior procura, pois são fundamentais no processo do controle de emissão de gases, e o mercado de peças está preparado para atender a essas demandas. Isso já foi comprovado ao longo dos anos, especialmente em acontecimentos sazonais. Por exemplo, durante a pandemia, o mercado de reposição garantiu o abastecimento da frota circulante em serviços essenciais, como de ambulâncias, viaturas policiais, corpo de bombeiros e até mesmo veículos particulares dos profissionais da saúde”, comenta Carvalho. O desafio, segundo Carvalho, é como transformar a ITV em solução. “A responsabilidade cabe às empresas que irão fornecer a certificação; às oficinas e lojas do setor, que deverão responder pela qualidade das peças e serviços oferecidos; e, finalmente, ao proprietário do veículo, pois a manutenção é sempre mais frequente em carros com maior tempo de uso.”
Sindirepa do Estado de São Paulo e Brasil
A entidade é favorável à implementação da inspeção veicular e atua em conjunto com outras associações para que essa medida seja adotada, abrangendo tanto as questões ambientais quanto a segurança dos veículos. “Além da verificação das emissões de gases, é fundamental incluir itens de segurança, contribuindo para a prevenção de acidentes de trânsito. A experiência em São Paulo, por exemplo, demonstrou que a inspeção teve um impacto positivo na redução de poluentes, além de estimular a procura por serviços de manutenção nas oficinas. Isso comprova que a legislação trouxe benefícios concretos para a saúde da população, por meio da melhoria na qualidade do ar”, destaca Antonio Fiola, presidente do Sindirepa de São Paulo e do Brasil. A inspeção técnica veicular (ITV) trará ganhos para toda a sociedade. “O motorista passará a colaborar com a melhoria da qualidade do ar e com a saúde pública e manterá o seu veículo em boas condições de uso. Os mecânicos sentirão um aumento na demanda por serviços – em São Paulo, quando a inspeção estava em vigor, houve um crescimento de 30% nas oficinas. As autopeças também serão impactadas positivamente, com o aumento nas vendas de catalisadores, bicos injetores, bombas de combustível, escapamentos, filtros de óleo, entre outros itens. É um ciclo que movimenta a economia”, reforça Fiola. No entanto, para que tudo isso se concretize, Fiola é direto: “É preciso engajar a classe política para que a pauta avance nas diversas esferas do legislativo e volte a se tornar lei. Estamos trabalhando para isso”.
Fenive
A falta de manutenção adequada nos veículos compromete o funcionamento dos motores e aumenta a emissão de gases poluentes. Nesse contexto, os programas de inspeção veicular têm um papel fundamental, pois incentivam a manutenção da frota, reduzindo a poluição gerada pelos automóveis. “Infelizmente, os programas de inspeção periódica — voltados ao controle de emissões atmosféricas ou à segurança veicular — ainda não são bem aceitos pela sociedade. Isso ocorre porque os cidadãos já são diariamente onerados por diversos encargos, enquanto o governo falha em demonstrar os reais benefícios dessas iniciativas, que salvam vidas e reduzem doenças e lesões no trânsito”, afirma Daniel Bassoli, diretor-executivo da Fenive. Segundo ele, a inspeção não deve ser encarada como um custo elevado, especialmente quando comparada ao valor da saúde pública. A manutenção preventiva, ressalta, é essencial. “Se os cidadãos não mantêm seus veículos em boas condições de forma espontânea, os programas de inspeção tornam-se ferramentas eficazes para reduzir emissões. Um bom exemplo é Santiago, no Chile, onde a inspeção veicular — tanto de segurança quanto de emissões — está em vigor há muitos anos, com resultados positivos na redução de panes, emissões e na melhora da segurança viária. Outros países seguem o mesmo caminho. A inspeção é uma ferramenta essencial para fomentar a manutenção da frota”, defende Bassoli. Ele também reforça que a Inspeção Técnica Veicular (ITV) é uma aliada na verificação de veículos mais antigos ou que passaram por danos severos, como alagamentos, garantindo que eles possam circular sem oferecer riscos ao meio ambiente ou à segurança no trânsito. “Esses veículos, muitas vezes inseguros, com falhas mecânicas e propensos a panes, comprometem o tráfego e causam acidentes, sem que haja um controle efetivo das autoridades. Acreditamos que apenas com a inspeção periódica obrigatória e uma fiscalização inteligente será possível garantir que veículos em más condições deixem de circular. A inspeção estimula a manutenção da frota, enquanto a fiscalização automatizada permite identificar os veículos irregulares para a abordagem policial”, conclui.
Legendas:
Ranieri Leitão: a ITV contribui para conscientizar os motoristas sobre o uso de peças certificadas
Heber Carvalho: desafio está em transformar a ITV em solução para os problemas ambientais e de segurança veicular
Antonio Fiola: “É preciso engajar a classe política para que a pauta avance nas diversas esferas do legislativo e volte a ser lei”
Daniel Bassoli: outros países comprovam a eficácia da ITV






































