NOVOS RUMOS
Escrito por Pellegrino -
Após três décadas dedicadas ao desenvolvimento do setor de reparação de veículos no Estado de São Paulo e no Brasil, Luiz Sergio Alvarenga deixará a presidência do Sindirepa, em dezembro, para dedicar-se exclusivamente ao trabalho de consultoria. Aqui, ele comenta as principais ações realizadas ao longo da sua carreira e os futuros
desafios para os profissionais da área
por Rosiane Moro
Revista Pellegrino: Depois de 30 anos atuando no setor da reparação automotiva, quais foram os principais aprendizados da sua carreira?
Luiz Sergio Alvarenga: O balanço, de forma resumida, é que a minha trajetória fez com que eu passasse praticamente em todas as entidades que militam no pós-venda e no aftermarket. Então, o meu ângulo de visão foi construído por meio do contato
com os empresários do setor e da análise de como as decisões coletivas eram tomadas, o que me deu ótima bagagem para transitar em vários segmentos, como concessionárias, distribuidoras, varejo e reparação, além de governo e outras instituições nacionais e internacionais, resultando em um rico aprendizado profissional.
RP: Um dos marcos da sua carreira foi a participação na criação das Normas ABNT para o setor da reparação. Como foi esse processo?
Alvarenga: Eu tinha a indústria como uma referência, sempre regida por regras. Assim, me aproximei da Associação Brasileira de Normas Técnicas para entender como era o processo normativo e até que ponto seria relevante para o aftermarket, um mercado focado no lado comercial. Vi ali um bom instrumento para padronizar alguns serviços,
como a garantia de peças, a cobrança de clientes, as especificações do produto. Desenhar as normas foi um desafio absurdo porque era uma escola nova e precisei sentar com todo o setor para desenvolver as especificações que não existiam. Naquela época, cada um fazia do jeito que queria. “Ah, mas a fábrica orienta”, só que são várias fábricas de um mesmo produto e cada uma explica de um jeito. Resumindo, ali estava a chance de a gente começar a criar um padrão que iria beneficiar todo o trading.
RP: Qual a relevância dessas normas para o mercado atualmente?
Alvarenga: Sinceramente, o setor não usou as normas como eu imaginava, como na tratativa com o consumidor, na tratativa de uma garantia de produto e na tratativa de redes de serviços, porque eram regras neutras. Talvez ainda falte maturidade ou as
questões ainda estão no tempo errado. Pode ser que isso ainda venha muito forte no futuro em função de judicialização dos processos, mas o trabalho não foi em vão. As normas evoluíram, já são mais de 25 no momento, o que permitiu criar a certificação das empresas e a certificação de profissionais. Algo foi semeado ali, o que me deixa mais feliz.

RP: Qual a importância da qualificação profissional para os reparadores automotivos,
especialmente nesta fase de transição tecnológica?
Alvarenga: A educação é um dos temas que mais me toca porque a escolaridade é a base de uma sociedade. Acredito que a capacitação profissional é o maior gargalo do nosso setor e isso tem que ser uma discussão de todos, porque não podemos esperar cinco, dez ou 15 anos para formar uma pessoa. Ao mesmo tempo, não é um vídeo de cinco minutos no YouTube que vai resolver o problema. Então, qual é a solução? Eu não sei, só sei que tem um choque entre o avanço da tecnologia e a profissionalização do setor, as coisas não estão equalizadas.
RP: O que pode ser feito para melhorar a situação?
Alvarenga: O modelo usado hoje é paliativo, como o sistema do treinamento do Senai ou mesmo de algumas indústrias. Pelo tamanho do país, o volume de pessoas e dos interesses que existem, acho que as ações educacionais deveriam ser melhoradas e mais coordenadas. É como se eu fizesse um curso com você e na semana seguinte fizesse o mesmo curso com outro instrutor, mas ninguém sabe que já fiz o mesmo curso. Na prática, era necessária uma complementação dessa aprendizagem para o profissional ir evoluindo, como em uma escola, onde há um acompanhamento pedagógico. Sinto que isso ainda é uma coisa muito distante no nosso setor, um gargalo dos mais graves.
RP: Além da qualificação profissional, quais são os próximos desafios que a área
de reparação vai enfrentar?
Alvarenga: Não vejo os desafios ligados às inovações do setor. Sabemos que a tecnologia é implacável, vai sempre evoluir porque está baseada em questões
ambientais e de segurança, não tem escapatória. Mas se há algo que realmente
nos assusta são os dados dos veículos. Os veículos se tornaram um monte de
semicondutores, o famoso computador sobre rodas, que gera muita informação, e esses dados serão a mina de ouro dos negócios daqui pra frente. No momento, o detentor do dado é a montadora, porque ela é dona de todo o conjunto. Então, me parece uma coisa meio nebulosa, pois, se um determinado setor detém toda a informação, isso muda o jogo, gerando uma vantagem competitiva absurda. Além disso, tem uma série de pegadinhas no meio, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que ninguém está falando sobre isso, mas logo alguém vai ligar os pontos. É uma questão de compliance e não acho tão simples desatar esse nó. Eu diria que esse é o grande desafio.
RP: Esse tema tem a ver com o movimento Right to Repair?
Alvarenga: Ele está dentro, mas na realidade você tem dois movimentos. Um é o Right to Repair, que tem a ver com o bloqueio de informações tecnológicas do carro, que as oficinas não têm acesso. A questão dos dados eu diria que está mais relacionada à conectividade, que é o Right to Connect. Uma coisa é obter informação para consertar o carro com produtividade, a outra é a informação que o carro gera. Vou dar um exemplo mais lúdico: você dirige o seu carro mais tecnológico, aí pisa no freio, acelera, liga o rádio, usa a multimídia, a montadora está lendo tudo o que você faz. Ela sabe
a rádio que você escuta, em qual horário, quantas vezes pisa no freio, se faz muita
curva brusca para a esquerda. Essa é a vantagem competitiva.
RP: Em relação ao movimento Right to Repair, conseguimos avançar algum ponto?
Alvarenga: Houve um avanço tímido com a aliança de entidades para trabalhar
a bandeira do Right to Repair. A gente sabe que surgiram alguns projetos de lei que tratam disso, mas no campo dos equipamentos eletrônicos. Ou seja, o tema já chegou mais perto, mas ainda não sensibilizou o poder público. Há um conhecimento maior por conta do alinhamento de entidades em torno de um guarda-chuva global, o que é uma evolução, mas do ponto de vista prático nada foi resolvido ainda.
RP: Como o tema da sustentabilidade irá impactar os reparadores no futuro?
Alvarenga: Evoluímos bastante em relação a alguns quesitos, como a fumaça preta e o descarte do óleo, mas ainda há muito a avançar, em especial no setor de pneus. As baterias ainda precisam ter a logística reversa resolvida. Já os setores que possuem valor material estão mais organizados, como é o caso do aço. O problema é que são muitos itens, e a própria legislação não consegue cobrir tudo. Há ainda a necessidade de campanhas educativas mais consistentes e com maior regularidade.
RP: Que mensagem você gostaria de deixar para os reparadores?
Alvarenga: Como recado final, vou usar uma frase do Steve Jobs que diz “você não pode conectar os pontos olhando para a frente, você só pode conectá-los olhando para trás, então você tem que confiar que os pontos de alguma forma se conectarão no seu futuro”. É isso! Se a gente não tem memória, não registra o que fizemos no passado, não teremos parâmetros para seguir adiante.






































