Fale conosco pelo WhatsApp

Gestão

Use o crédito a seu favor

Escrito por admin -

Apesar de ser visto como uma solução emergencial para momentos de aperto financeiro, o crédito, quando bem planejado, pode ser uma poderosa ferramenta para impulsionar o crescimento do negócio.

Por Tatiana de Almeida Prado

Para muitos empresários, recorrer ao crédito ainda é visto como algo negativo. Um sinal de fraqueza ou de má gestão. No entanto, essa fama de mau mocinho nem sempre faz sentido, pois, quando utilizado de forma consciente e estratégica, o crédito se transforma em uma ferramenta poderosa para reforçar o caixa, expandir as operações e impulsionar a expansão do negócio.

Solicitar crédito pode ser uma prática saudável quando o investimento gera um retorno financeiro maior do que o custo do financiamento. Alguns exemplos: na compra de estoque com alta rotatividade e margem, para reformas que aumentam a capacidade de atendimento ou ainda como investimento em tecnologia ou automação do sistema de vendas. Ou seja, o crédito deve servir para gerar receita ou reduzir custos operacionais – e não para tapar buracos no caixa. “Tomar recursos de terceiros deve ser algo estratégico. Se for pela necessidade emergencial, é importante ver onde a empresa está errando”, explica Willian Verchai, consultor financeiro da Jogabi Soluções Empresariais, que presta serviços de consultoria financeira para micro, pequenas e médias empresas.

Por isso, antes de recorrer a um financiamento, é essencial entender se o problema da empresa é realmente falta de capital ou uma questão de organização. Se, mesmo após estruturar o fluxo de caixa, renegociar prazos e cortar gastos, ainda faltarem recursos para repor um estoque estratégico ou viabilizar um projeto de expansão com retorno mensurável, o crédito pode ser um importante aliado. Por outro lado, se a empresa gera lucro, mas ele se perde em meio à desorganização operacional, o caminho certo é investir em gestão.

Cuidados essenciais

Manter um controle financeiro rigoroso é um dos primeiros passos para usar o crédito de forma estratégica. Logo, antes de contratar um empréstimo, o lojista precisa avaliar se as parcelas cabem no orçamento da empresa sem comprometer o caixa. Para isso, uma das práticas mais importantes é a projeção do fluxo de caixa futuro, baseada no desempenho financeiro passado. Ferramentas como a Demonstração de Fluxo de Caixa (DFC) e a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) são fundamentais nesse processo. Enquanto o DFC mostra para onde vai o dinheiro da empresa, a DRE revela o quanto o negócio é lucrativo. “Com esses relatórios, fica muito mais seguro traçar cenários futuros e evitar dívidas impagáveis”, explica Verchai.

Ele destaca ainda que contar com o apoio de uma consultoria financeira pode ser decisivo para interpretar os números corretamente e fazer um verdadeiro raio X da saúde financeira do negócio. Algumas orientações práticas ajudam as empresas a se proteger do fantasma do endividamento, afinal, ninguém quer fazer parte

das estatísticas de inadimplência. Para se ter uma ideia, segundo dados do Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian, em janeiro de 2024, havia 6,7 milhões de CNPJs no vermelho no Brasil. Para não aumentar esses números, recomenda-se analisar com cuidado a real capacidade de pagamento por meio do fluxo de caixa, evitar contrair crédito apenas para quitar dívidas recorrentes e focar o aumento das vendas com boa margem de lucro, além de reduzir custos e despesas sempre que possível.

Verchai ainda alerta: “é indispensável considerar as retiradas mensais dos sócios”. O que acontece, segundo ele, é que muitas empresas deixam de incluir essas retiradas na formação do preço, e a precificação inadequada é um dos principais motivos que levam empresários a recorrer a empréstimos. “O sócio precisa pagar suas contas pessoais, mas, se a empresa não tem caixa para isso, a solução acaba sendo pegar dinheiro emprestado”, reforça.

Qual escolher?

Escolher a linha de crédito certa faz toda a diferença para a saúde financeira da empresa. O consultor recomenda avaliar o prazo conforme a finalidade do recurso: para a compra de estoque, o mais indicado são linhas com prazos mais curtos; já para investimentos maiores, como reformas ou expansão, o ideal é buscar opções de longo prazo. Além disso, é essencial verificar o custo efetivo total (CET), o período de carência, as taxas de juros e as garantias exigidas pela instituição financeira.

Priorizar linhas específicas para capital de giro, investimento fixo ou inovação pode trazer mais segurança. “Instituições como Sebrae, BNDES, agências de fomento estaduais, como a Fomento Paraná, Desenvolve SP e BRDE, e cooperativas podem ser grandes aliadas na hora de buscar crédito, em vez de depender apenas dos bancos tradicionais”, orienta Verchai.

Na hora de negociar as condições de crédito, vale redobrar a atenção. Comparar propostas de diferentes instituições e usar a concorrência a seu favor é uma estratégia essencial para conseguir melhores taxas. “Não aceite de imediato o que aquele gerente de banco, seu amigo de longa data, oferecer. O mercado é competitivo; por isso, negocie e compare sempre”, recomenda.

Outra dica é oferecer garantias reais, como um imóvel, veículo ou aplicação financeira, ou até contar com avalistas – isso pode ajudar a reduzir os juros do empréstimo. Além disso, uma atitude simples pode fazer a diferença: convidar o gerente do banco para visitar a sua empresa. “Geralmente, no varejo, o gerente não tem tempo para conhecer a fundo cada negócio da sua carteira. Mas, quando ele vê de perto a estrutura, a seriedade da gestão e a necessidade real do crédito, aumentam as suas chances de conseguir uma aprovação com condições mais favoráveis com o comitê”, explica o consultor.

Não coloque tudo a perder

O crédito pode ser uma ferramenta importante para impulsionar o crescimento de uma loja, mas o seu uso inadequado pode comprometer seriamente o futuro do negócio. Muitos lojistas cometem erros comuns que, em vez de ajudar na recuperação e no desenvolvimento da empresa, acabam agravando a situação financeira.

Entre os principais equívocos está o aumento da dívida sem uma geração futura de caixa suficiente para quitá-la. Usar o crédito apenas por necessidade imediata, sem planejamento ou análise de cenários, é outro erro frequente. Muitos empresários sequer elaboram uma planilha para projetar o impacto financeiro do empréstimo, o que dificulta a melhor alocação dos recursos.

Outro erro recorrente é investir em novos produtos ou negócios sem um estudo aprofundado. “O feeling do dono é importante, mas não pode substituir um planejamento cuidadoso. O ideal é planilhar e estudar”, recomenda o consultor.

Além do já mencionado uso do crédito para cobrir retiradas pessoais dos sócios, muitos empresários também cometem erros ao pegar empréstimos para pagar dívidas sem antes tentar renegociar os débitos existentes ou contratar crédito sem um plano claro de pagamento. “Para evitar esses erros, o ideal é planejar cuidadosamente o uso do crédito, analisar a real capacidade de pagamento e buscar apoio especializado sempre que necessário, garantindo que o empréstimo seja um aliado, e não uma ameaça ao futuro da loja”, finaliza Verchai.


Opções de crédito

Capital de giro

Ideal para reforçar o caixa em momentos de baixa liquidez ou para cobrir despesas operacionais, como folha de pagamento, aluguel ou fornecedores. Deve ser usado com planejamento para não comprometer o fluxo de caixa.

Antecipação de recebíveis

Permite adiantar valores a receber de vendas no cartão ou boletos. Útil para equilibrar o caixa sem precisar recorrer a um empréstimo tradicional, mas exige atenção às taxas cobradas.

Financiamento para investimento fixo

Destinado à compra de máquinas, equipamentos, reformas ou à ampliação do ponto comercial. Costuma ter prazos mais longos e pode exigir garantias reais.

Leasing (arrendamento mercantil)

Alternativa para aquisição de bens, como veículos e equipamentos, com pagamentos mensais. Ao fim do contrato, a empresa pode adquirir o bem por valor residual.

Crédito rotativo empresarial

Funciona como um limite pré-aprovado. Tem alta taxa de juros e deve ser usado com cautela, apenas em situações pontuais e em curto prazo.

Copyright © 2021 • Pellegrino - Todos os direitos reservados.