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Gestão

Saúde mental em dia

Escrito por Pellegrino -

A nova versão da NR-1, em vigor desde maio de 2025, amplia o foco da norma e torna obrigatória a atenção das empresas aos riscos psicossociais, como estresse, ansiedade, burnout e assédio moral

Por Tatiana de Almeida Prado

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ara muitos, a maior parte do dia acontece dentro da empresa; logo, trabalhar em um ambiente acolhedor e respeitoso deveria ser a regra, e não a exceção. As Normas Regulamentadoras (NRs) existem justamente para assegurar a dignidade do trabalhador. São diretrizes e obrigações estabelecidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego para garantir a segurança, a saúde e o bem-estar dos empregados (atualmente, são 38 NRs no total). Instituídas em 1978, elas passam por atualizações periódicas para acompanhar as transformações no mercado de trabalho. Mas foi apenas a partir de 2024 que os riscos psicossociais passaram a fazer parte dos critérios da NR-1 (Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais). Isso quer dizer que as empresas precisam proporcionar, além da segurança física dos colaboradores, um ambiente mentalmente saudável.


A mudança, aliás, chega em um momento bastante oportuno: em 2024, mais de 440 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais e comportamentais – um recorde histórico, representando um aumento de quase 67% em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Essa realidade mostra que a necessidade de um novo olhar sobre a questão psíquica envolvendo os colaboradores é mais do que necessário. A Pesquisa Tendências 2025, realizada pela plataforma de empregos Catho, aponta que mais de 40% dos trabalhadores preferem um ambiente mentalmente saudável a um salário mais alto.


Em termos práticos, fatores psicossociais estão relacionados à forma como a empresa está organizada, às condições de trabalho e às relações interpessoais. “Em lojas de autopeças ou oficinas, eles podem entrar em desequilíbrio quando há cargas excessivas de trabalho – atendimento intenso e metas irreais –, falta de controle sobre tarefas, pressões de tempo constantes, conflitos com clientes, jornadas extensas, falta de clareza sobre responsabilidades e relações interpessoais negativas entre a equipe”, explica Joana Callia, médica da Zuki Saúde Ocupacional, assessoria especializada em Segurança e Saúde do Trabalho.    

A partir de agora, toda organização que possui trabalhadores sob o seu gerenciamento é obrigada a realizar a gestão dos fatores psicossociais como parte da Gestão de Riscos Ocupacionais (GRO). No entanto, pequenos empresários não precisam cumprir as mesmas exigências de grandes empresas. “O MEI, por exemplo, está dispensado de elaborar o PGR [Programa de Gerenciamento de Riscos], desde que não haja riscos ocupacionais. Já micro e empresas de pequeno porte podem seguir um modelo simplificado. Ainda assim, é importante destacar: mesmo com regras mais leves, todas as empresas devem garantir a segurança e a saúde do trabalhador. Caso contrário, estão sujeitas a multas e até processos”, afirma Roger Wetzel, product owner da Solução de Saúde e Segurança do Trabalho da Senior Sistemas.

Impactos  na  produtividade e  no  bem-estar

Imagine uma loja de autopeças com uma equipe enxuta, prazos cada vez mais apertados e uma demanda intensa de clientes. A pressão constante gera estresse, desgaste físico e emocional – e é lógico que o corpo sente. Nesse contexto, as falhas começam a aparecer: erros em pedidos, atrasos no atendimento e queda na satisfação dos consumidores. “Não é preciso ser especialista para perceber que questões emocionais impactam negativamente o dia a dia da empresa”, observa Wetzel.                   

O Ministério do Trabalho e Emprego não exige uma ferramenta específica para avaliar os riscos psicossociais. Cada empresa pode escolher o método que melhor se adapta à própria realidade. Vale lembrar que o objetivo da NR-1 não é mensurar a saúde mental individual dos colaboradores, mas sim analisar as condições de trabalho no geral. Como acabar totalmente com o estresse é impossível, o caminho mais indicado é descobrir como administrar situações estressantes, começando com um diagnóstico do ambiente de trabalho.

“O gestor pode, por exemplo, aplicar questionários simples sobre clima e bem-estar, ouvir os funcionários em reuniões rápidas, observar sinais de irritação, queda de produtividade, afastamentos frequentes ou conflitos. Também é possível acompanhar indicadores, como aumento de erros ou rotatividade, além de criar canais seguros para que os colaboradores tragam sugestões ou até mesmo denúncias”, orienta Wetzel.

Para os empresários que cumprem a NR-1, as vantagens vão muito além de evitar multas e penalidades. Benefícios como redução de faltas, atrasos, saídas adiantadas, afastamentos e rotatividade, aumento da produtividade, diminuição dos custos com planos de saúde, melhoria do clima organizacional, atração e retenção de talentos e fortalecimento da imagem como empregador de referência no mercado são percebidos em estabelecimentos que zelam pela saúde mental de seus funcionários. Para Wetzel, “investir em saúde mental e segurança não é apenas cumprir a lei, é uma estratégia de negócio”.  

Multas,  reputação  e responsabilidade  social

É a partir de 2026 que as penalidades relativas à NR-1 passam a valer de fato. Empresas que não estiverem adequadas poderão enfrentar multas, termos de ajustamento, ações judiciais ou até mesmo a interdição de setores.

As punições variam desde valores proporcionais à gravidade da infração e ao porte da empresa até ações civis públicas do Ministério Público do Trabalho, indenizações por danos morais e materiais e aumento dos custos previdenciários pelo Fator Acidentário de Prevenção (FAP – índice aplicado sobre a contribuição da empresa ao Seguro Acidente de Trabalho). “Não é só o bolso que pesa; a reputação do negócio também pode ser bastante prejudicada”, lembra Wetzel. “Há impacto na imagem da marca como empregador irresponsável e perda de talentos para os concorrentes mais cuidadosos com a saúde mental”, reforça Joana.

Empresas que fazem a gestão dos riscos psicossociais não estão apenas seguindo a lei, mas também demonstrando respeito pelas pessoas que ajudam o negócio a crescer todos os dias. É por isso que conseguem atrair os melhores talentos do mercado e incentivar a inovação por meio de equipes mais engajadas. Além disso, demonstram responsabilidade social corporativa, fortalecendo o relacionamento com clientes conscientes, cada vez mais determinados a gastar com marcas cujos valores estão alinhados com os seus. “Empresas que implementam uma gestão ética de riscos psicossociais criam vantagens competitivas sustentáveis”, destaca a médica. Para se adequar à NR-1, não é necessário investir grandes valores nem implementar mudanças complexas. “A maioria dessas ações exige apenas tempo e atenção da gestão, sem custos significativos”, explica Joana. Ações simples já fazem diferença: organizar o ambiente de trabalho, incentivar pausas e alongamentos, colocar um mural com orientações de segurança e promover conversas sobre saúde mental. Também vale buscar capacitações gratuitas em instituições como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) ou sindicatos. “E é essencial registrar tudo o que está sendo feito, mesmo que em uma planilha simples – reuniões, melhorias, treinamentos. Isso demonstra boa-fé e ajuda bastante em uma eventual fiscalização”, alerta Wetzel.

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