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FOCO EM ELÉTRICOS OU A COMBUSTÃO?

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A indústria de autopeças encara como muito promissores os avanços em relação a veículos elétricos, e vem trabalhando nessa direção. É um caminho sem volta. Mas, ao mesmo tempo, não tira o pé do chão: componentes de veículos a combustão e elétricos devem coexistir por longo tempo

Por Paulo Carneiro

Em meio às incertezas deixadas pela pandemia do novo coronavírus, a produção global de carros elétricos deu um salto vertiginoso em 2020, consolidando uma inegável tendência de crescimento. Para ter uma ideia, após uma fase de expectativas, os emplacamentos aumentaram 41% em comparação ao ano anterior, segundo estudos da Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês), elevando a 20 milhões o total unidades registradas em todo o mundo. No vácuo dessa arrancada, as vendas globais cresceram cerca de 140% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2020, ainda segundo dados da IEA.

Já no Brasil, o mercado teve um aumento de 60% em 2020, comparado a 2019, ultrapassando a casa dos 20 mil veículos elétricos emplacados, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Sim, os números são modestos em termos absolutos, mas mostram sinais de uma revolução em andamento, à qual toda a cadeia automotiva precisa ficar ligada. Nessa linha, os principais fabricantes de autopeças saem a campo com estratégias definidas para enfrentar essa nova etapa da história, agregando ao universo da eletrificação o que há de mais avançado em tecnologia.

Questão estratégica

Para o gerente de produto P&D Aftermarket automotivo da Schaeffler, Thiago Martins, a empresa não só enxerga a mobilidade elétrica como questão estratégica, como até criou a unidade de negócios E-Mobility para consolidar todas as atividades nessa área. “Há algum tempo a Schaeffler produz componentes e soluções de sistema, como eixos eletrônicos e módulos híbridos, fornecendo essas soluções para as principais montadoras. Por essa razão, o foco e a experiência beneficiam a divisão de Aftermarket no desenvolvimento de soluções empregadas nos veículos híbridos e elétricos”, afirma. Segundo ele, muito além do portfólio, a empresa decidiu capacitar o corpo técnico para essas novas tecnologias de modo a atender toda a rede de reparação. Ao destacar os resultados atuais, o executivo cita o motor 800 Volts, a ser produzido na Europa a partir de 2023, assim como o kit fead 48-Volts, considerado, segundo ele, a primeira solução de manutenção para veículos híbridos de 48V, bem como o motor elétrico para módulos híbridos, a transmissão híbrida e o eixo elétrico Schaeffler.

Diante desse planejamento, fica a impressão de que os veículos a combustão estariam relegados a segundo plano, mas não é bem assim. Segundo Thiago, a Schaeffler, por ser empresa global, está sempre atenta às tendências do mercado e preparada para acompanhar simultaneamente tanto a mobilidade elétrica quanto as linhas de produtos convencionais. “Na América do Sul, a tendência é para uma transição de médio ou longo prazo em termos de frota circulante, de modo que mantemos nossa forte presença nos veículos a combustão, mas atentos e prontos para atender às novas demandas dos híbridos e elétricos”, diz. “Mesmo com essa transição, a Schaeffler vem desenvolvendo soluções para a mobilidade de forma independente visando as necessidades do mercado, de forma global, e as demandas locais.”

Na opinião do gerente, a frota circulante de veículos no Brasil será ainda predominantemente a combustão nos próximos cinco anos, o que, segundo ele, exige uma demanda significativa nas áreas de serviços, assistência técnica e treinamentos, com foco no suporte e capacitação dos clientes nas novas tecnologias que venham a ser incorporadas. “O foco estará voltado também ao lançamento de novos produtos, inclusive para a frota atual. Dessa forma, embora tenhamos de oferecer produtos e serviços para a frota circulante, vale salientar que estaremos trabalhando no desenvolvimento de soluções para a mobilidade, atendendo às necessidades e demandas do mercado.”

Compromisso com a eletromobilidade

Para o presidente da divisão Automotive Aftermarket da Bosch América Latina, Delfim Calixto, a empresa já está amplamente comprometida com a eletromobilidade, produzindo soluções para veículos híbridos, elétricos e células a combustível. “Segundo as estimativas da empresa, mais de 32 milhões de veículos híbridos e elétricos serão produzidos mundialmente até 2025 – tanto os equipados com a tecnologia 48V quanto a célula a combustível – e, exatamente devido a essa tendência, a mobilidade elétrica é uma das áreas importantes de atuação para o Grupo Bosch.” De acordo com Calixto, o mercado de reposição tem de estar atento a todas as tendências e mudanças, tanto no que diz respeito à capacitação da mão de obra quanto na aquisição de equipamentos adequados para fazer o correto diagnóstico e manutenção dos veículos. “Estes são os pontos essenciais para manter a competitividade. Neste sentido, acredito que o mercado local está preparado para atender à diversidade da frota atual e há inclusive oficinas aptas para a realização de serviços em veículos híbridos e elétricos.”

O executivo ressalta ainda que a segurança dos profissionais das oficinas é fundamental, quando se trata de veículo elétrico, por conta do sistema de alta tensão. “Por essa razão, a capacitação técnica, o uso adequado de ferramentas e as adequações do espaço de trabalho são importantes”, afirma. “Aproveito para ressaltar que o Centro de Treinamento Automotivo da Bosch (CTA) já conta com um curso específico para manutenção de veículos eletrificados, dividido em três módulos, envolvendo o conhecimento dos dispositivos de segurança, diagnóstico e a intervenção para desconectar o sistema de alta tensão do carro.” Calixto acrescenta que, nos últimos anos, a Bosch criou tecnologias inovadoras, como acionadores, baterias de alta voltagem e sistema de frenagem regenerativa, tudo em harmonia com as exigências do mercado.

“O setor automotivo é uma área em constante evolução tecnológica, e toda a cadeia de reposição precisa estar alinhada e atualizada, diante das novas tecnologias e das mudanças comportamentais a fim de ampliar a gama de produtos e serviços oferecidos ao mercado”, afirma. “Para contribuir com o desenvolvimento do varejo de autopeças, a Bosch tem, desde 2008, o programa InterAção, voltado ao relacionamento e à geração de demanda entre a empresa e lojas de autopeças, que contempla uma série de ações de suporte aos lojistas e aplicadores.”

A despeito de todo o empenho na eletrificação, Calixto afirma que o atendimento aos veículos convencionais continuará na ordem do dia, com dedicação e planejamento. “A Bosch continuará atuando ativamente no aprimoramento das tecnologias a combustão, visando uma condução mais eficiente, segura e sustentável. Para diferentes aplicações e mercados, teremos um convívio de algumas possíveis soluções em conjunto com o motor a combustão, que ainda será mais eficiente por um longo período”, afirma. “Os veículos híbridos desenham uma transição que combina a autonomia do elétrico aos motores a combustão interna. Em diferentes possibilidades, isso permite uma experiência melhor e ao mesmo tempo apoia a redução de emissões. Já os elétricos puros vão se desenvolver rápido nos grandes centros urbanos e na mobilidade individual, em paralelo ao desenvolvimento de novas tecnologias de baterias, enquanto os veículos com fuel cell serão os mais indicados para uso por longas distâncias.”

Segundo Calixto, no cenário brasileiro, o sistema híbrido será a tecnologia com maior diferencial e potencial de comercialização, em conjunto com a motorização flex. “O mercado interno não vai caminhar tão rápido quanto em outros países para a eletrificação dos veículos. Isso porque, em parte, o país já tem o etanol, que atende exigências de redução de emissões, com a criação da tecnologia Flex Fuel, que a Bosch ajudou a posicionar também em outros países. Os veículos elétricos devem cobrir demandas nas grandes cidades em um prazo intermediário, especialmente para os compartilhados ou comerciais pequenos, destinados ao serviço de entregas.” Ele ressalta, porém, que uma participação mais efetiva dos veículos elétricos no mercado exigiria que o governo e seus diversos agentes adotassem políticas públicas integradas para substituição da frota atual por veículos mais limpos e eficientes, mesmo que de forma gradativa, não necessariamente 100% elétricos.

Sem temer o que virá no futuro, Calixto afirma que a Bosch está moldando ativamente a mobilidade com forte atuação em áreas como eletrificação, redução de emissões, veículo autônomo, conectividade e digitalização, além de realizar parcerias estratégicas com empresas privadas, universidades e institutos de pesquisa. “Sabemos que a Inteligência Artificial das Coisas (AIoT) está cada vez mais presente na mobilidade, e a indústria automotiva tem dois grandes desafios: desenvolver carros ainda melhores – mais seguros, eficientes e conectados – e contribuir com soluções para aprimorar os fluxos nos grandes centros urbanos”, afirma. “É dentro desse contexto que a Bosch tem conduzido seus desenvolvimentos e inovações e assim seguirá também nos próximos anos.”

Eletrificando tudo o que se move

Também o diretor de Aftermarket da ZF, João Lopes, define a eletrificação como prioridade, ao destacar os avanços já realizados pela empresa nessa área. “A ZF está eletrificando tudo o que se move, de bicicletas a caminhões extrapesados e investindo pesado em condução autônoma, que inclui o desenvolvimento e a produção de sistemas de propulsão elétrica, sensores e câmeras, atuadores, centrais de processamento e softwares”, afirma, ao lembrar que esses componentes irão precisar de calibração e manutenção. “A empresa já disponibiliza treinamento em alta voltagem, necessário à manutenção de veículos elétricos e híbridos, já que eles funcionam com voltagens de 400V e 800V, dependendo da aplicação.” Segundo Lopes, após esses primeiros passos, a meta será oferecer treinamentos de manutenção nos produtos ZF específicos para essa aplicação, como transmissões, motores elétricos e eixos de tração, entre outros, incluindo diagnóstico, manutenção preventiva e corretiva com o uso de telemática. “No momento adequado, tudo isso será disponibilizado também no Brasil.”

João Lopes acrescenta que a nova divisão de drivelines (linhas de transmissão) elétricos da ZF, anunciada em 2020, foi criada exatamente para melhor atender as demandas globais voltadas para veículos elétricos e plug-in, principalmente em relação aos carros de passeio. Essa unidade de negócios, segundo ele, concentra e fortalece os desenvolvimentos para todos os mercados em que a ZF atua, inclusive o brasileiro. “No caso do Brasil, existem duas vertentes possíveis: a importação de veículos híbridos ou elétricos ou sua produção local. Nas duas alternativas, a empresa tem o portfólio de produtos e serviços para atender à indústria automobilística e o aftermarket, cabendo lembrar que já existem veículos em testes na América do Sul com componentes ZF.”

Segundo ele, as novas tecnologias trazem a necessidade de novas linhas de produtos, mas isso não significa uma substituição completa das já existentes, algumas das quais aplicadas tanto em veículos a combustão, quanto em elétricos e híbridos. “Veículos novos e antigos coexistirão ainda por um bom tempo, e devemos estar preparados para todas essas demandas”, diz. “A ZF tem desenvolvimentos específicos e uma equipe de engenharia dedicada apenas aos novos lançamentos a fim de acompanhar mais rapidamente essas tendências. Além disso, como sabemos, a marca possui uma das linhas de produtos mais extensas e completas do mercado, e assim deve permanecer.”

Nesse embate cordial entre velhas e novas tecnologias, Lopes afirma que as perspectivas são boas para o mercado automotivo, depois da queda verificada no início da pandemia. “Há uma tendência muito forte de que tudo volte gradualmente ao normal, mantendo um ritmo estável, tanto para as montadoras, como para o setor de reposição. Mas, muito além de crescimento, em termos de volumes, prevemos que esses próximos cinco anos trarão mudanças significativas no perfil da demanda, em termos de facilidades, serviços e disponibilidade de peças em soluções integradas e conectadas” afirma. “Além disso, as novas tecnologias, que estão ganhando espaço no Brasil, também representam oportunidades, não apenas para a ZF, mas para toda a cadeia, já que possuem maior valor agregado por peça e serviço, que serão cada vez mais especializados.”

Para o executivo, a cadeia de distribuição também passará por mudanças significativas, graças, segundo afirma, ao aumento da digitalização. “Temos concentrado esforços e estamos acelerando nossas soluções para todo o canal como precursores dessas mudanças, seja no processo logístico, com a implementação do RFID, do VMI, de mais automação ao nosso centro logístico ou na melhoria da experiência de nossos clientes”, afirma. “É uma reviravolta na forma de atender com mais eficiência e integração baseada em dados.”

Quebra de paradigma

Atento ao avanço tecnológico, o gerente de engenharia e vendas OEM da Fras-le, Alexandre Casaril, afirma que a eletrificação deve ser tratada como uma quebra de paradigma, a exemplo de outras já ocorridas no passado. “É importante ressaltar que novas tecnologias resultam de iniciativas que envolvem não apenas a montadora, mas a cadeia como um todo, ou, ao menos, os atores envolvidos no desenvolvimento e na fabricação da peça”, diz. “Especificamente sobre o sistema de freio e seus componentes, contexto no qual a Fras-le está inserida, é notório que a presença do freio regenerativo diminuirá drasticamente a quantidade de vezes em que o freio de roda será de fato acionado e diminuirá ainda mais a quantidade de energia que será dissipada pelo freio de roda”, afirma. Segundo ele, isso resulta em alteração de temperatura de frenagem e modifica o processo de desgaste e renovação da superfície do disco e da pastilha. “Há que se observar ainda a dinâmica dos processos de corrosão e envelhecimento dos materiais, a geração de ruído durante a frenagem e uma série de outros eventos.”

“Resumindo”, prossegue Casaril, “a tecnologia das pastilhas e dos discos de freio, e eventualmente do próprio sistema de freio, poderá evoluir muito para atender ao funcionamento dos novos veículos, a depender das necessidades dos mesmos e de como o mercado perceberá o desempenho do freio”. Para ele, a curva de evolução da tecnologia e do próprio mercado automotivo está longe de atingir a estabilidade, pois, segundo afirma, ainda há muito espaço à frente. “O papel da Fras-le é dedicar recursos de pesquisa, desenvolvimento e inovação para construção dos melhores produtos a fim de atender às necessidades e desejos do usuário neste novo cenário”. Nossa história atesta esta visão, pois sempre estivemos conectados à inovação tecnológica e buscamos acompanhar as tendências tecnológicas da indústria automotiva.

De acordo com Casaril, a Fras-le continuará fornecendo os produtos que atendem aos modelos convencionais, paralelamente ao desenvolvimento das tecnologias voltadas aos veículos eletrificados. “Uma empresa protagonista como a nossa, que visa sempre a liderança, precisa se preocupar com o mercado como um todo.” Ele ressalta que a mudança tecnológica da combustão interna para eletrificação não será uma “virada de chave”, mas acontecerá com maior velocidade em alguns mercados e de forma mais lenta em outros. “Cremos que no mercado brasileiro esta transição deverá ser lenta.”

SAIBA MAIS

Schaeffler

(15) 3335 1500 / 0800 011 10 29

www.schaeffler.com.br

Bosch

0800 7045446

www.bosch.com

ZF

0800-0111100

www.zf.com

Fras-le

0800 7 512 169

www.fras-le.com

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